sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Natal 2010 E Uma Pequena Reflexão


A festa natalina é sempre um momento reflexivo para quem acredita na eterna importância espiritual do mestre Jesus. E, ao pensar sobre a passagem de Jesus na Terra, sou remetida às bem-aventuranças...
Jesus plasma, ao realizar o Sermão da Montanha, a inigualável síntese do aperfeiçoamento humano. As idéias proferidas nas bem-aventuranças modelam um caráter notável e possibilitam semear a essência divina no interior da consciência humana. Constroem, metaforicamente, condutas morais e éticas albergadas em máximas de amor. É um chamado, um alerta que convida-nos a vivenciar concepções teóricas subjetivas através de práticas objetivas.
Há complexidade na simplicidade incomparável do Sermão da Montanha. A complexidade habita no julgo de que encerra uma proposta impossível como projeto pessoal, inatingível em sua plenitude. Por sua vez, a simplicidade permeia os ensinamentos de Jesus e transparecem a idéia de que são atemporais e aplicáveis a todos os indivíduos, a qualquer experiência vivenciada, porque são, em essência, límpidos e verdadeiros.
A questão é que precisamos criar pontes entre esses dois extremos para que possamos caminhar humanamente o divino. Se estagnarmos nossa vontade de progredir, emaranhados nas dificuldades que nós mesmos criamos, perdemos o sentido da vida e bloqueamos seu fluxo natural. Viver é como dançar. Dançar é muito mais prazeroso quando nos deixamos envolver pela vibração dos acordes e criamos os próprios passos. No entanto, se perdemos o foco no som que estamos ouvindo e nos ecos que a música repercute dentro de nós, não conseguimos dançar com ritmo e só realizamos movimentos descompassados.
A simplicidade dos ensinamentos de Jesus é essencial, porque é ela que oferece repouso, descanso aos aspectos complexos do ser e de sua existência, garantindo a renovação de forças para a vitória diária, criando a principal ponte entre o possível e o aparentemente inatingível.
A plenitude e a magnitude das falas de Jesus podem ser experimentadas pela condição humana, mesmo na sua atual imperfeição, se essas palavras são entendidas como pontos que vamos posicionando na linha, na trajetória de nossas vidas, como metas que fazem pequenas ligações e que nos ajudam a seguir o caminho menos doloroso. Só assim não as desperdiçamos como limites ou modelos imaginários. Há para isso que se fazer uma escolha íntima, um acordo legítimo consigo mesmo para se melhorar de forma autêntica, sem contenções e condicionamentos alinhavados nas malhas rígidas de culpas e medos desprovidos de amor. Precisamos nos libertar da dual falta de perdão e de coragem que nos aprisionam tão frequentemente.
Ser puro também é ter sinceridade na intenção. Ser manso também é ser forte para não se desviar de seus objetivos e não se perder em vinganças. Tudo é uma questão de como recebemos e vivemos as palavras de Jesus.
O Deus, criador das pequenas e grandes coisas, para quem oramos e clamamos diante de nossos sofrimentos, é também o Deus que habita a nossa intimidade e conhece as nossas necessidades. É o Deus que, como centelha divina, impele-nos para o bem e inspira-nos as melhores soluções para todas as vicissitudes, no recôndito silencioso de nossas almas. O Deus das causas impossíveis é também o Deus que existe, em potencialidade, desejoso por se expandir e florescer no jardim que precisa ser cuidado por cada um de nós, e que é o meu, o seu, o nosso coração!
Feliz Natal!
(Autora: Cris Lopes)

domingo, 20 de junho de 2010

Moça da roça


(Tela de Di Cavalcanti: Mulheres com frutas)

Quero um amor assim
Com sabor de fruta madura,
Colhida “na vez”,
Ofertada do pé!

“É doce, moça, tão doce...”
“Mode tomou injeção de açúcar, meu sinhô?”

Quero um amor assim
Feito dia de verão
Quando criança gulosa
Recebe na mão
Manga Rosa,
Manga sem casca!

“Eita, fruta gostosa!”

Agrada a boca.
Devagar, em lasca,
Deixa a fome tão louca
Que só uma fruta é pouca!

A vontade instiga,
Mastiga até o caroço,
Lambe a fruta em fileira.
Morde todinha pela beira!

“Ô, moça faceira...”
“Ô, meu sinhô...”
“Quando chupa manga se lambuza, viste?”
“Entonces, que ninguém me veja, porque desejo é outra inteira!”
“Eita, moça gulosa! Manga é fruta grande. Tá comendo kinem cereja!
“ Vixe, Maria! Esconjuro, pé-de-pato, mangalô três vezes!!!
Uai, sô! Ocê já viste moça da roça gostar de tiquim, de fruta pequena?”
(Autora: Cris Lopes)
Minas Gerais, meu lar há 11 anos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010



SORRIA!
VOCÊ NÃO ESTÁ
SENDO
FILMADO
( by Cris Lopes)

"Palavras criam personagens que conquistam vida genuína com atitudes!"
(Autora: Cris Lopes)

Quem sou eu?


Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho,
Esquecida de quem fui,
Estranha de quem serei.

Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho
Rodopiando ao vento,
Vencida, solta na chuva,
Sem refúgio, ao relento.
Extraída da vida
Sem raízes, sem teu carinho...

Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho
Inventando asas,
Esperando o sol volver,
Abrindo céus para voar até você!

Quem sou eu?
EU SOU, simplesmente,
UMA MULHER, corpo e mente,
Que não se aquieta
E não sossega o que sente!
(Autora:Cris Lopes)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Adeus, Iaiá


Madrugada fria:
Passos,
Descompassos,
Ninguém sorria.

Longe, tudo tão perto.
As últimas horas:
Solidão, dor, agonia...

O corpo coberto,
O olhar incerto...
As mãos cerradas,
As palavras guardadas...

A luz resplandece no quarto sombrio.
Anuncia o momento da travessia.
Vozes amigas confortam-lhe o vazio:
Vamos?
Ela, lúcida, agradece e confia.
No rosto enrugado
Um esboço de alegria.
Nos outros:
Muitas lágrimas...
(autora: Cris Lopes)

(Tela de Nelson Screnci: Sorrisos Anônimos)

Com as pessoas
Aprendo,
Desaprendo,
Reaprendo
Um pouco
De quase tudo!
Cris Lopes
A Inteligência sem generosidade e sensibilidade
É tal como agulha sem linha:
Não alinhava, não remenda,não costura nada...
Cris Lopes





Chamada Atendida... Engano, Desencanto.


Teus olhos, amor,
Entristeceram-se nas paredes vazias.
Desejastes vê-las repletas de lindos enfeites...
E eu, que te amava tanto,
Aprendi a tecer estrelas
Só para o azul do teu olhar sorrir
E o Ano Novo conspirar
Ao teu contentamento...

Teu corpo, amor
Sofria de frio.
Desnudavam-te os panos,
Afagos, deleites ausentes de anos...
Quantas noites sem carícias, sem malícias,
Despertaram-te as manhãs sem euforia?
Doíam os teus pés,
Tuas costas também doíam,
Doía e só doía.
Doía tudo e doía onde ninguém via.

E eu, que te amava tanto,
Agasalhei-te com meu corpo,
Naufraguei as mãos em teus tecidos,
Sem descanso, sem gemidos,
E olvidei meus próprios gritos...

Tua alma, amor,
Sem inspiração,
Instável, sozinha,
Artista em pedaços,
Contraía falas,
E nada concebia...

E eu, que te amava tanto,
Alinhavei-te o pranto,
Teci enredos, novelos de contos,
Suspensos fios, sem pontos...

Por quanto quisestes,
Fui tua amante e tua amiga.
Perfumei de alecrim tuas feridas.
Atapetei o chão de rosas às tuas voltas,
Arranquei-te lágrimas contidas, agradecidas!
Abri todas as janelas,
Destranquei todas as portas.
Entreguei, confiei a ti o sol
E a alegria da minha vida!

E eu, que te amava tanto,
Abençoei teu rumo sem encanto!
No entanto,
Ceguei-me,
Desnudei-me,
Amaldiçoei-me...

E eu, que te amava tanto,
Recolhi-me no meu canto,
Sem nunca mais conseguir, amor, dizer-te
Adeus...

(Autora: Cris Lopes)

sexta-feira, 14 de maio de 2010


(Pintura original de Frieda Harris: O Mundo- Lâmina do Thoth Tarot de Aleister Crowley)

Flores parecem flutuar...
Perfume,
Meu jardim,
Meu mundo, profundo,
Então, permito-me deitar sobre a grama
E simplesmente fluir-me,
Sem preocupar-me com o esmero da palavra,
Porque minha pequena alma não sabe escrever,
Só sabe sentir...

Os hindus dizem que reconhecemos as pessoas, que fazem parte de nossas “vidas passadas”, pelas mãos e olhos.
Confirmo?

Sei que nas vidas presentes, mãos e olhos são reveladores:
Desvendam personalidades,
Expressam corações...
Como alguém oferece suas mãos e nos olha
É tal como o murmúrio dos segredos infantis:
Só não entende quem não quer.

Mãos acariciam com ternura e olhos envolvem por inteiro.
Encontros...
Mãos acenam um adeus e olhos dizem “eu sempre vou te amar”.
Desencontros...

Adoro mãos com intenção do bem.
Adoro oferecer minhas mãos.
São sempre quentes.
Adoro as mãos de todas as pessoas de quem gosto...
As primeiras mãos que amei foram as de minha mãe.
Minha filha amou as minha.
As mesmas palavras ditas,
Retidas,
Repetidas:
Abrigo, proteção...

Adoro olhar as pessoas com quem falo.
Meu olhar tem palavra de honra:
Nunca mente...
Conheci poucos olhares como o meu.
Dizem que é lindo. Também acho.
Meu olhar também é vidente.
Pressente.
Infelizmente?

Mãos: pincéis para desejos.

Olhos: janelas para o mundo.

E somos nós os mestres de nossas escolhas...

Alguns escancaram as janelas. Querem ver tudo!
Pintam telas gigantes, coloridas, versáteis...
Outros só conseguem bisbilhotar pelas frestas. Temem enxergar além!
Traçam singelos esboços...

E assim todos vivem
E alguns se perdem...

Preciso sair do jardim...

(Autora: Cris Lopes)

domingo, 11 de abril de 2010

Secreto Inverno


O salão amplo, iluminado pelo sol de outono, ostenta ainda a decoração da última festa de aniversário. Balões coloridos e feixes ondulantes de serpentina contornam o teto, intactos. A semelhança das alvas cabeleiras paralisa-me no portal por alguns segundos, enquanto a localizo. Não avisei que chegaríamos e, quando nos aproximamos, ela nos estende a saudade com os braços... A envolvemos ternamente...

Deixo que minha filha comece a contar-lhe todas as novidades. Quieta, em sua cadeira, sorri meio sem graça. A contemplo nos seus noventa e cinco anos. O tempo parece ter se enganado desde o último mês. Pela primeira vez causa-me estranheza. A timidez ou a quietude nunca nortearam seu comportamento. A curiosidade e a tagarelice sempre foram seus eficientes tentáculos para controlar tudo e todos.

Nossa comunicação é íntima e silenciosa. Nossos olhares compartilhados denunciam o desconforto da nova situação. Nas frases repetidas, entrelinhas, as nuances em seu rosto parecem se desculpar por não conseguir mais ser a mesma... Compadeço-me amedrontada pelo presente e ameaçada pelo meu próprio futuro.

Silene, sentada próxima, balança a boneca junto ao coração, escondida em pensamentos vazios. Reflexiva, acompanho o ininterrupto ninar de mentira. Outros olhares atentos desejam saber se a criança já dorme. Expressões petrificadas revelam sonhos incrustados e completam o cenário insólito, perfeitamente organizado.

O aroma costumeiro de sabores intromete-se no cheiro das roupas limpas e no relato das novidades. A moça robusta da copa aproxima-se com um prato raso de plástico branco. No entanto, a boneca teima em permanecer naqueles encolhidos braços. Surpreendo-me com a forte resistência do corpo miúdo. Minha avó, mais desconcertada do que antes, explica-me a rotina de Silene: os alimentos precisam ser derramados em pacientes colheradas, porque ela não suporta mais comer. Pergunto-lhe sobre a boneca. A lucidez altiva tenta desculpar os trejeitos da anciã. Revela que ninguém consegue separá-la da menina de plástico e que tem uma filha. Penso o quanto ela deve ter sido uma boa mãe e a compreendo profundamente.

Atenta ao nosso diálogo, minha filha parece reflexiva, enquanto a barreira desdentada testa a persistência da copeira. Num salto, a análise ganha ação e se posiciona junto a dupla que trava sua batalha. A jovialidade sábia e sensível comenta que a boneca é bonita, mas que ainda seria mais linda se comesse e ficasse forte. A barreira se abre no sorriso da boca oca e recebe a primeira colher cheia. As outras descem distraídas. A boneca feliz se empina para mostrar a saia nova. A funcionária da copa, aliviada e agradecida, sorri também pela primeira vez.

Pratos, copos e talheres são distribuídos aos que ainda se alimentam sem ajuda. Depois, há rodízio diante dos corpos contorcidos e paralíticos. Movimentos emprestados garantem a sobrevivência.

Minha avó se despede. Parece não querer nosso testemunho ao seu dominical almoço. No entanto, caducamos o seu apelo e permanecemos, sem o mínimo desejo de partir. Posicionamos a cadeira da “Iaiá” próxima à mesa. O risoto chega e o feijão vem depois num pequeno pote separado. Pergunto-me desde quando ela gosta da comida assim. Sempre impliquei com a mania que tinha de misturar toda a refeição. Mais uma vez a desconcertante comunicação sem palavra. Ela me lança um olhar de soslaio embaraçado. Nunca pensei que, na minha vida, espionaria um pote de feijão!

As estações vestem e despem as perenes naturezas com suas distintas formas mutáveis...

O calendário, lá fora, assinala o outono. No entanto, para todos eles, o inverno já chegara... O tremor, a secura e a escassez fazem com que a simples tarefa de comer necessite de muita concentração, empenho e coragem. Em cada colherada minha avó revela-se a guerreira, a mulher de fibra de outrora. O talher é depositado ao lado do prato vazio. O feijão é suspenso como oferenda e o último a ser sorvido aos goles . Compreendo agora o pote.

O vento espalha a chuva...

A forma hibernada já não me provoca mais estranheza. Reconheço nela a mulher que sempre chamei de minha vó e a admiro mais do que antes...

Cris Lopes

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ser


Nascemos, crescemos e morremos...
É tão simples o ciclo em si.
Contudo, viver encerra muito mais do que existir.
Para viver é preciso ser e para ser é preciso vibrar!
Vibrar é potencialidade em ação, em intensidade.
Vibrar é deixar a vida fluir sem obstáculos.
Infelizmente, algumas vezes, os sofrimentos nos enlaçam inesperadamente.
Cruelmente nos esvaziam da alegria vibrante que permeia a vida dos bons de coração.
E, a princípio, continuamos a existir por simples fisiologia.
Pensamos que não seremos capazes de suportar, que sucumbiremos à loucura
ou que jamais reencontraremos a nossa alma.
Como viver sem vibrar?
Como existir sem viver?
Como ser obscuro rascunho de si próprio?
Arrebatados dos sonhos idealizados,
Somos lançados ao abismo mais profundo...
O abismo interior, recôndito lugar. misterioso e sombrio.
Ficamos quietos: sozinhos e encolhidos. Diminuídos, ressecados.
Somos crianças velhas: choramos, soluçamos e desidratamos.
Claro que o abismo, invisível aos olhos humanos, pode acontecer enquanto falamos, caminhamos ou trabalhamos.
O processo é todo visceral e corrosivo. É íntimo e secreto. Mata como veneno silencioso.

E, quando você está lá, no seu próprio e solitário abismo, perdido de si, sem aparente saída, começa a pensar em Deus.
Pergunta a Ele: por que, Deus? O que fiz para merecer esse sofrimento?
Talvez, você não encontre respostas aqui e agora.
No entanto, com os pés firmados no âmago de si mesmo, você olha para cima e vê o céu se abrir,
a dualidade da existência, a respiração do universo que conspira por nós...
E a vida continua, esteja ela em qualquer dimensão, desejosa de pulsar.

Assim, compreendemos que no amor não há lugar para o medo, a culpa, o ódio.
Que merece saudade quem nunca desejou partir...
Que o mal que nos fazem não consegue adoecer nossa natureza boa por muito que seja...
Que amigos de verdade nunca fecham suas portas quando pedimos ajuda...
Que há pessoas que verdadeiramente e incondicionalmente nos amam
E são elas os nossos tesouros eternos...
Assim renascemos, renovamos nossos sonhos e VIBRAMOS!

(Autora: Cris Lopes)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Vida Dupla


(Tela de Augusto Gomes: Homem Sentado)

O rangido da porta prenuncia o amanhecer.
Ele, como sempre, chega com passos arrastados, disfarçando o cansaço. Esconde a camisa no pequeno guarda-roupa, como quem também deseja pendurar-se naquela escuridão. Enquanto troca de roupa, admira-a: imóvel, alva, mas ele sabe que seu corpo ganha vida quando suas mãos dedilham-lhe as formas.
Manoel sofre o esgotamento da vida dupla. O médico já o alertara. O estresse, acumulado ao longo da jornada pesada de trabalho, alterou-lhe a pressão arterial. As palpitações apressam-se em avisá-lo do perigo iminente. Precisa descansar, tirar férias. No entanto, quando retorna para casa, as crianças pulam sobre ele no sofá. Transbordam alegria nas traquinices, e ele adia o olhar para si mesmo, como se o bem fosse capaz de anular a existência do mal. Engana-se.
Márcia aparece sempre por último. A proximidade dela não lhe acalenta o coração como o abanar do rabinho de Chuvisco ou a ciranda das crianças a sua volta. Todas as noites, contudo, ele beija a face da mulher. Reconhece nela uma boa companheira que merece mais, muito mais do que ele é capaz de proporcionar-lhe.
A esposa continua fogosa. Entretanto, quando fazem amor, Manoel fecha os olhos. Ausenta-se. Cumpre, apenas, num ritual de desdobramento, o papel de homem. Pensa até que ponto a “outra” é a responsável pelo fim do entusiasmo às entregas da mulher. A mente distante ocupa-se daquela que, dia e noite, é a verdadeira e única senhora de sua preocupação. A que o escraviza. Mais um orgasmo. Seus poros impregnados exalam o odor da “outra”. Não entende como Márcia nunca reclama. Impossível que não perceba o cheiro tão presente. Impossível que não sofra pelas madrugadas de cama vazia.
Odeia o espelho do banheiro. Se não fosse a vasta barba já o teria partido em mil pedaços. Seus olhos lacrimejam quando o homem, de mais de cinqüenta, ri impiedoso dos seus trinta e poucos anos.
Finalmente, só ele e ela. A magia, a cada encontro, nos últimos seis anos, parece incrementar-se. Tão deliciosa, a alquimia transborda em movimentos desavergonhados, rápidos, violentos. Quanto mais ele a toca, mais urge a sensação de suas mãos largas, ágeis, ousadas. Muitas vezes ele enlouquece. Odeia a submissão de suas formas e a maltrata. Sem piedade, bate-lhe com força. Ela, despudorada, gosta. Sorve suas pancadas sem dor. Ele grita, geme. Hoje tudo é diferente: depois, ele dá o último suspiro e desmancha-se sobre a mesa. Perdida, ela gruda-se ao corpo inerte dele.
Portas cerradas. Pessoas correm atrasadas pela espera. Vem e voltam preocupadas. A vizinhança agita-se e comenta: que estranho! O que será que houve com o padeiro?
Cris Lopes