segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Flores


(Andrade- Campo de flores)
Eu valorizo o que a vida me dá,e o que ela me subtrai, encaro como a devolução de um empréstimo! Seja como for, eu teimo em ser feliz! E o que as pessoas chamam de ser feliz por nada, na verdade, depois de se alcançar uma certa maturidade, a gente percebe que é ser feliz por tudo. Por tudo que existe de maravilhoso na nossa vida e, que muitas vezes, deixamos passar despercebido: a roseira que oferece,generosa,lindas flores; um beijo roubado num momento envergonhado; o sol que brilha logo cedinho; a amiga emprestando aquele gel ótimo para dor; o cheirinho de terra antes da chuva cair e assanhar as árvores; a filha que fala o quanto ama você; comer abacaxi quando está docinho ou limonada suiça com bastante gelo; dançar "aquela" música que nem doida...Eu podia enumerar tantas outras oportunidades que nossos sentidos nos presenteiam, no entanto, finalizo, dizendo só mais uma frase para vocês- é muito bom despertar!
(autora: Cris Lopes)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Água


Água,
Fluida escoa,
Transporta,
Umedece,
Penetra a terra,
Fecunda.
Floresce bosques,
Evapora;
Sobe e Desce;
Vira chuva,
Enriquece.
Envolve,
Protege.
A bolsa explode,
Anuncia a vida.
Oferece o peito.
Nutre.
Conduz pelo leito,
Rios,
Caminhos de filho.
Chora quem pode,
Quem tem água,
Quem tem vida!
Água recolhida:
Estertores,
Sibilos,
Asfixia.
A vida quando resseca,
Seca, a vida é morte!
É vaso vazio
De raiz enterrada,
Esquecida no tempo
Sem nada!
(autora: Cris Lopes)

domingo, 11 de setembro de 2011

Meu nome não é Madalena


Foto do acervo pessoal. Turquia.
A Teoria e a prática são complementares e ótimas aliadas, mas infelizmente, na grande maioria das vezes, não são bem aproveitadas. Racionalizar, questionar, pensar, refletir, duvidar são processos enriquecedores quando permitem mergulhar no nosso lado sombrio. Só através desse mergulho que adquirimos o conhecimento do “eu profundo” que habita em cada um de nós. E, que isento de hipocrisia, de máscaras, de ilusões, nos abre espaço para o amor. O amor mais importante de nossa vida que, se escolhido, nos acompanhará desinteressada e incondicionalmente, e que é o auto-amor. É ele que permite, ao colocar do avesso a nossa nudez, exibir-nos as vísceras de nossas entranhas mais escondidas. É ele que permite sermos generosos com nossa condição de pequenos aprendizes transcendentais e bondosos com nossos erros. E, assim, sem medos e sem culpas, nos acolhe, nos protege, nos acalenta e nos renova o desejo de sermos a melhor versão de nós mesmos. A perfeição dos outros, que ainda não cabe em mim, emociona-me, encanta-me e, com certeza, é fonte de estímulo e admiração. No entanto, quero estar ao meu lado no último suspiro desta minha existência...Quero ter a consciência plena de ter realizado na prática o que a minha inteligência foi capaz de teorizar, sem ter jogado no lixo, ou para debaixo do tapete, ou “quiçá” no terreno do vizinho nenhum tantinho, nenhum caquinho, nenhuma poeirinha de mim, porque tive a coragem de aprender com uma vida de verdade!!! Sei que se um dia representar só me convém o palco! Meu nome é Cristina e esta sou eu que conheço muito bem...
(autora: Cris Lopes)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Que país é esse?

O que eu estou pensando agora? Numa juíza que "realmente" fazia o trabalho dela e, por isso não foi só assassinada, foi "FUZILADA"; numa deputada federal sem escrúpulos que ganha o direito de permanecer no cargo pela votação da maioria dos seus "colegas", depois que seu advogado alega que se houver afastamento pelo que ela fez antes da posse , isso vai abrir um precedente para qualquer outro deputado ser investigado e punido.
Duas mulheres, com trajetórias de vida bem diferentes.Quem levou a melhor? O exemplo de uma me emociona, me dá orgulho de ser mulher, de ser uma pessoa ética, honesta, enquanto a outra me envergonha, no entanto as duas provocam-me revolta, revolta da impunidade.Impunidade para quem extermina o bem, impunidade para quem faz o mal... Sim, tenho vergonha nessas horas pelos outros. Tenho vergonha pelo jornalista que anuncia a votação da maioria desavergonhada e acaba a notícia dizendo: isso não quer dizer que ela não vá responder pelo que fez diante da justiça. Justiça comum? E, eu me pergunto, e daí? E DAÍ??? Como se isso pudesse apagar o fato de que a maioria presente numa votação dessa importância, eleita por nós para representar e defender "teoricamente" o nosso direito, faz isso!!! Sim, nessas horas sinto muita vergonha, vergonha de ser brasileira! Há uma música que fez parte da trilha sonora de novelas, e já virou tema da maioria dos políticos brasileiros: Nas favelas, no senado, sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse? Que país é esse? Que país é esse?
Falando em constituição... Há alguns dias "crianças" foram presas roubando, destruindo, ameaçando funcionários de um hotel. Levadas para a delegacia, alegaram ter menos de 12 anos. Chamaram o Conselho Tutelar. No Conselho, quebraram, destruíram tudo de novo... De volta para a delegacia: desafiaram, provocaram os policiais."Estão protegidas porque são crianças!!!" Entra todo mundo para justificar o fato de uma "criança" ser transformada em "bandido". “Ops...Criança brinca!!!". Tenho uma opinião muito clara sobre isso: a sociedade não determina a índole, a essência de ninguém. Se fosse assim não existia doutor filho de bandido, nem bandido filho de doutor. Ela favorece ou desfavorece; facilita ou dificulta as circunstâncias, mas vou deixar o que penso a esse respeito de lado, porque isso dá um outro texto. Enquanto isso, quem paga a conta? Quem já paga tudo!!! Eu, você, nós que trabalhamos muito e deixamos ao menos 30 a 40% para o país sob a forma de impostos!!! Querem "curar" isso? Então, que criem megas estruturas nas capitais como centros de reabilitação para menores infratores. Sim, que sirvam de referência/ direcionamento para os estados. Por que não? Quantos estádios de futebol tem espalhados pelo Brasil? Centros que ofereçam formação educacional/ oficinas profissionalizantes; assistência psicológica/ médica/ odontológica; comida e atividades esportivas. Não há verba para tanto? Então, que façam parceria com grandes empresários através de incentivo fiscal, mas não! Vivemos de hipocrisia! E, somos obrigados a presenciar, engolir coisas absurdas o tempo todo!!! Falta liderança? Falta organização? Falta educação? Falta coragem? Falta vergonha na cara? Estou recordando outra música: "Inúteu"! A gente somos "inúteu"!"Inúteu"!A gente somos "inúteu"!
(autora: Cris Lopes)

sábado, 2 de julho de 2011

Imperfeita


Deus é perfeito; eu não sou. Ele sabe e eu também.
A imperfeição oferece liberdade ao exercício do meu ser e faz de mim uma criança.
Sorrio, desejo, embirro, zango, choro, danço, canto, acerto, erro e até falo sozinha...
Muitas vezes provoco desordem a casa com uma bagunça bendita que sacode a poeira e coloca para fora coisas escondidas.
Tem gente que se aproveita da confusão: acha, limpa, usa o que serve ou descarta, despacha o que não presta no lixo!
No entanto, tem gente que detesta bagunça. Pessoas assim não me querem de volta nem pulando amarelinha nos fundos do quintal do vizinho.
Preferem o tapete no lugar cheio de sujeira por debaixo; a cozinha limpinha com o fogão tampado e coberto pela toalhinha; a mesa de jantar vazia de pratos e copos degustados;
a cama de lençóis bem passados, esticados sem marcas de abraços.
Gente assim não gosta de criança levada que sabe brincar de verdade!
Prefere miniatura de adulto robotizado!
Cria uma expectativa de mesmice exagerada, como se alguma inovação, sopro de evolução ou alegria imensa pudesse sobrevir de algo que só é copiado infinitamente...
Confunde harmonia com monotonia; organização com inflexibilidade; omissão com boa educação, sossego com falta de criatividade!
E é por isso que sou inquieta, mutável, questionadora e sigo ao lado de crianças tão ou mais levadas do que eu pelo simples prazer,
Prazer de criar, inventar, descobrir, desmontar, destruir, perguntar, reconstruir e rir.
Se houver necessidade, discutimos, batemos bocas, ficamos suados, e até descabelados,
Mas acrescentamos daqui, subtraímos dali e o resultado final dá certo.
Eu e meus amigos somos todos diferentes,
E temos algo em comum: adoramos ser assim!
(autora: Cris Lopes)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Homem dormindo


Lembranças chuleiam as alegrias puídas do nosso amor.
Recordo a cama tão pequena, o quarto tão pequeno, o mundo tão pequeno.
Pernas e promessas entrelaçadas
À bendita desordem de nossas bocas e braços.
Ancas confrontadas,
Em gozos, confortadas...
E nós dinamizados, transbordantes,
Tão aliados e tão amantes,
Apostando em tudo,
Jurando verdades,
Mentiras distantes...

Ah, se algum vidente tivesse me avisado,
Como enganaria o tempo para perpetuar nossas entregas?
Talvez ousasse o meu sorriso mais bonito,
Despisse a minha roupa preferida
E fugisse acenando meus cabelos ao vento,
Sem volta,
Sem revolta,
Sem olhar para trás,
Solta,
Numa corrida enlouquecida.

Assim, como tudo o que vive por miúdo tempo,
Deixaria uma saudade imensa,
Desconfortante,
Movediça.
Desconcertante,
E jamais seria esquecida...
(autora: Cris Lopes)

sábado, 11 de junho de 2011

Avesso



Amanheço com sabor de menta e café;
Adormeço com cheiro de camomila e malva.
Há muito aprendi o prazer dos gostos simples,
A sedução dos cheiros naturais,
Degustar a vida em canecas fumegantes:
Cascas de laranjas, calda de ameixas, cravos e canela.
Acariciar a terra com olhares e dedos.
Plantar, replantar...
Debulhar segredos,
Dedilhar o sol pelas frestas da janela,
Descortinar cores e flores.
Saber do tempo que o ar anuncia,
Vibrante movimento,
Seguir como as velas,
Entregues ao vento...

Sorrisos e Portas.
Mãos e Camas.
Pernas e Fugas.

A beleza de flor
A rosa revela
Do avesso...

Já deixei roupas sem amasso,
Arranquei roupas ao acaso.
Vestida ou nua,
Amada ou amordaçada tantas vezes
Pelos egoístas e mentirosos em seus currais,
Sou eu, livre, que danço a música dos temporais.
Sou eu, sozinha, que rodopio com a chuva no quintal...
Trovões:
Saravada,
Sacudo maldições.
Sou eu que cuspo na cara do mal,
Vitória decretada!
Vivo minhas histórias,
Abandono o que não mereço.
Sem olhar para trás,
Despasso,
Despacho,
Desfaço
E do avesso, amanheço.
Amanheço do avesso:
Frases,
Faces,
Fases,
Sempre mulher
Sou eu...
(autora: Cris Lopes)

Ser Ator


(Passeio de Marc Chagall)

Se viver é amar,
Ser ator é ganhar vidas,
Vidas emprestadas,
Que desejam ser contadas;
Histórias veladas,
Reais ou inventadas,
Desnudadas mesclam
Mentiras e liras.

Ser ator é apropriar-se sem rodeios,
Improvisar ou seguir roteiros,
Sacudir, revelar, bagunçar
Emoções escondidas,
Guardadas, esquecidas...

Ser ator é dar vida
À vidas não escolhidas:
Vidas alegres,
Vidas doídas!

O talento, se verdadeiro,
O dom vibra,
Flui por fibra.
Requer coragem,
Sedução,
Memória,
Disciplina,
Malandragem...

Ser ator é se entregar por inteiro:
Possuído ou
Conquistado.
Ser herói ou bandido,
Amado ou traído,
Eternizado ou esquecido.
Pobre ou rico há de brilhar
E ser intenso- calmo ou tenso.
Provocar sorrisos ou prantos.
Iludir, seduzir com seus encantos.
E a magia,
A veia de representar é como a da vida:
Desponta,
Desaponta,
Transborda,
Transforma,
Sem limites, convida...
(autora: Cris Lopes)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Impactos


Vi um cachorro correndo.
Vi um cachorro correndo atrás de outro cachorro.
Vi um cachorro pequeno correndo.
Vi um cachorro grande correndo atrás de outro cachorro pequeno.
Vi um cachorro pequeno correndo e passando por debaixo de um banco.
Vi um cachorro grande correndo atrás de outro cachorro pequeno e não conseguindo passar por debaixo de um banco.
Vi um cachorro grande uivando de dor.
Vi um cachorro pequeno voltando.
Vi um cachorro pequeno voltando e lambendo as costas de um cachorro grande uivando de dor.
Coitado...

Vi três homens gargalhando.
Vi três homens gargalhando muito de um cachorro grande uivando de dor.

Vi um bicho que fugia de outro voltar para socorrê-lo...
Vi três animais gargalhando sobre duas patas...

Queria só ter visto os bichos...
(autora: Cris Lopes)

sábado, 30 de abril de 2011

A Carruagem do Viajante


(Príncipe de Paus- Tarô de Crowley)

Dizem por aí
Que amor é a chave da felicidade.
Tem gente que duvida.
Acredita que dinheiro
É o que dá alegria à vida.
Outros acrescentam que é a fé.
Ela sim faz a roda girar menos doída,
Mais colorida,
Mais bonita!

Quem escolhe sonhar?
Quem pode comprar?
Quem se lembra de rezar?

Vai, vai, vai,
Vai pra onde?

Dizem por aí
Que o povo do poder
Troca dignidade por oportunidade.
Maldade?
Quem rouba pela ganância,
Não teve mãe,
Perdeu a infância?
Vomita arrogância,
Queima,
Enterra jornalista!
Aparece em capa de revista
Chamado de bandido,
Vigarista!
Não tem problema:
Há de se eleger novamente.
Duvida?
Barriga vazia tem vista fraca,
A cabeça é oca, a memória falha!


Penso, logo existo.
Quem existe tem mente?
Quando mente, sente?
Quando sente, mente?

Vai, vai, vai,
Vai por quê?

Dizem por aí
Tanta coisa,
Que por aqui
Sempre acolhi a liberdade.
Quem me conhece, sabe.
Gosto de dizer o que penso,
Vibrar o que sinto,
Verter desejos.

Ah, o desejo...
O meu desejo,
O teu desejo,
O nosso desejo,
O desapego,
O que permanece,
Adormece...

Entre um prazer e outro,
Fui arrancando cascas,
Experimentando frutas.
Se gostava,
Chupava até o bagaço
E cuspia as sementes.
Assim, assim,
Cuspindo sementes,
Descobri
O que dá sabor,
O que dá cheiro
Às frutas que comia...

Dizem por aí
Que o “Segredo” é valioso.
Eu, por aqui, contemplo o desejo.
Interessam-me as diferenças,
No entanto,
Há algo único
Que antecede o desejo.
Aponta o caminho,
Escolhe o alvo.
E, tal como flecha,
Lança,
Impulsiona,
Atinge,
Fere,
Derruba,
Machuca...

Dizem por aí
Que existem homens estranhos.
Desprezam a própria conveniência.
Alguns acolhidos,
Escolhidos,
São chamados de santos;
Outros, ignorados,
Desprezados,
São recolhidos
Como loucos!

Tudo muito conveniente!
(autora: Cris Lopes)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Natal 2010 E Uma Pequena Reflexão


A festa natalina é sempre um momento reflexivo para quem acredita na eterna importância espiritual do mestre Jesus. E, ao pensar sobre a passagem de Jesus na Terra, sou remetida às bem-aventuranças...
Jesus plasma, ao realizar o Sermão da Montanha, a inigualável síntese do aperfeiçoamento humano. As idéias proferidas nas bem-aventuranças modelam um caráter notável e possibilitam semear a essência divina no interior da consciência humana. Constroem, metaforicamente, condutas morais e éticas albergadas em máximas de amor. É um chamado, um alerta que convida-nos a vivenciar concepções teóricas subjetivas através de práticas objetivas.
Há complexidade na simplicidade incomparável do Sermão da Montanha. A complexidade habita no julgo de que encerra uma proposta impossível como projeto pessoal, inatingível em sua plenitude. Por sua vez, a simplicidade permeia os ensinamentos de Jesus e transparecem a idéia de que são atemporais e aplicáveis a todos os indivíduos, a qualquer experiência vivenciada, porque são, em essência, límpidos e verdadeiros.
A questão é que precisamos criar pontes entre esses dois extremos para que possamos caminhar humanamente o divino. Se estagnarmos nossa vontade de progredir, emaranhados nas dificuldades que nós mesmos criamos, perdemos o sentido da vida e bloqueamos seu fluxo natural. Viver é como dançar. Dançar é muito mais prazeroso quando nos deixamos envolver pela vibração dos acordes e criamos os próprios passos. No entanto, se perdemos o foco no som que estamos ouvindo e nos ecos que a música repercute dentro de nós, não conseguimos dançar com ritmo e só realizamos movimentos descompassados.
A simplicidade dos ensinamentos de Jesus é essencial, porque é ela que oferece repouso, descanso aos aspectos complexos do ser e de sua existência, garantindo a renovação de forças para a vitória diária, criando a principal ponte entre o possível e o aparentemente inatingível.
A plenitude e a magnitude das falas de Jesus podem ser experimentadas pela condição humana, mesmo na sua atual imperfeição, se essas palavras são entendidas como pontos que vamos posicionando na linha, na trajetória de nossas vidas, como metas que fazem pequenas ligações e que nos ajudam a seguir o caminho menos doloroso. Só assim não as desperdiçamos como limites ou modelos imaginários. Há para isso que se fazer uma escolha íntima, um acordo legítimo consigo mesmo para se melhorar de forma autêntica, sem contenções e condicionamentos alinhavados nas malhas rígidas de culpas e medos desprovidos de amor. Precisamos nos libertar da dual falta de perdão e de coragem que nos aprisionam tão frequentemente.
Ser puro também é ter sinceridade na intenção. Ser manso também é ser forte para não se desviar de seus objetivos e não se perder em vinganças. Tudo é uma questão de como recebemos e vivemos as palavras de Jesus.
O Deus, criador das pequenas e grandes coisas, para quem oramos e clamamos diante de nossos sofrimentos, é também o Deus que habita a nossa intimidade e conhece as nossas necessidades. É o Deus que, como centelha divina, impele-nos para o bem e inspira-nos as melhores soluções para todas as vicissitudes, no recôndito silencioso de nossas almas. O Deus das causas impossíveis é também o Deus que existe, em potencialidade, desejoso por se expandir e florescer no jardim que precisa ser cuidado por cada um de nós, e que é o meu, o seu, o nosso coração!
Feliz Natal!
(Autora: Cris Lopes)

domingo, 20 de junho de 2010

Moça da roça


(Tela de Di Cavalcanti: Mulheres com frutas)

Quero um amor assim
Com sabor de fruta madura,
Colhida “na vez”,
Ofertada do pé!

“É doce, moça, tão doce...”
“Mode tomou injeção de açúcar, meu sinhô?”

Quero um amor assim
Feito dia de verão
Quando criança gulosa
Recebe na mão
Manga Rosa,
Manga sem casca!

“Eita, fruta gostosa!”

Agrada a boca.
Devagar, em lasca,
Deixa a fome tão louca
Que só uma fruta é pouca!

A vontade instiga,
Mastiga até o caroço,
Lambe a fruta em fileira.
Morde todinha pela beira!

“Ô, moça faceira...”
“Ô, meu sinhô...”
“Quando chupa manga se lambuza, viste?”
“Entonces, que ninguém me veja, porque desejo é outra inteira!”
“Eita, moça gulosa! Manga é fruta grande. Tá comendo kinem cereja!
“ Vixe, Maria! Esconjuro, pé-de-pato, mangalô três vezes!!!
Uai, sô! Ocê já viste moça da roça gostar de tiquim, de fruta pequena?”
(Autora: Cris Lopes)
Minas Gerais, meu lar há 11 anos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010



SORRIA!
VOCÊ NÃO ESTÁ
SENDO
FILMADO
( by Cris Lopes)

"Palavras criam personagens que conquistam vida genuína com atitudes!"
(Autora: Cris Lopes)

Quem sou eu?


Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho,
Esquecida de quem fui,
Estranha de quem serei.

Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho
Rodopiando ao vento,
Vencida, solta na chuva,
Sem refúgio, ao relento.
Extraída da vida
Sem raízes, sem teu carinho...

Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho
Inventando asas,
Esperando o sol volver,
Abrindo céus para voar até você!

Quem sou eu?
EU SOU, simplesmente,
UMA MULHER, corpo e mente,
Que não se aquieta
E não sossega o que sente!
(Autora:Cris Lopes)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Adeus, Iaiá


Madrugada fria:
Passos,
Descompassos,
Ninguém sorria.

Longe, tudo tão perto.
As últimas horas:
Solidão, dor, agonia...

O corpo coberto,
O olhar incerto...
As mãos cerradas,
As palavras guardadas...

A luz resplandece no quarto sombrio.
Anuncia o momento da travessia.
Vozes amigas confortam-lhe o vazio:
Vamos?
Ela, lúcida, agradece e confia.
No rosto enrugado
Um esboço de alegria.
Nos outros:
Muitas lágrimas...
(autora: Cris Lopes)

(Tela de Nelson Screnci: Sorrisos Anônimos)

Com as pessoas
Aprendo,
Desaprendo,
Reaprendo
Um pouco
De quase tudo!
Cris Lopes
A Inteligência sem generosidade e sensibilidade
É tal como agulha sem linha:
Não alinhava, não remenda,não costura nada...
Cris Lopes





Chamada Atendida... Engano, Desencanto.


Teus olhos, amor,
Entristeceram-se nas paredes vazias.
Desejastes vê-las repletas de lindos enfeites...
E eu, que te amava tanto,
Aprendi a tecer estrelas
Só para o azul do teu olhar sorrir
E o Ano Novo conspirar
Ao teu contentamento...

Teu corpo, amor
Sofria de frio.
Desnudavam-te os panos,
Afagos, deleites ausentes de anos...
Quantas noites sem carícias, sem malícias,
Despertaram-te as manhãs sem euforia?
Doíam os teus pés,
Tuas costas também doíam,
Doía e só doía.
Doía tudo e doía onde ninguém via.

E eu, que te amava tanto,
Agasalhei-te com meu corpo,
Naufraguei as mãos em teus tecidos,
Sem descanso, sem gemidos,
E olvidei meus próprios gritos...

Tua alma, amor,
Sem inspiração,
Instável, sozinha,
Artista em pedaços,
Contraía falas,
E nada concebia...

E eu, que te amava tanto,
Alinhavei-te o pranto,
Teci enredos, novelos de contos,
Suspensos fios, sem pontos...

Por quanto quisestes,
Fui tua amante e tua amiga.
Perfumei de alecrim tuas feridas.
Atapetei o chão de rosas às tuas voltas,
Arranquei-te lágrimas contidas, agradecidas!
Abri todas as janelas,
Destranquei todas as portas.
Entreguei, confiei a ti o sol
E a alegria da minha vida!

E eu, que te amava tanto,
Abençoei teu rumo sem encanto!
No entanto,
Ceguei-me,
Desnudei-me,
Amaldiçoei-me...

E eu, que te amava tanto,
Recolhi-me no meu canto,
Sem nunca mais conseguir, amor, dizer-te
Adeus...

(Autora: Cris Lopes)

sexta-feira, 14 de maio de 2010


(Pintura original de Frieda Harris: O Mundo- Lâmina do Thoth Tarot de Aleister Crowley)

Flores parecem flutuar...
Perfume,
Meu jardim,
Meu mundo, profundo,
Então, permito-me deitar sobre a grama
E simplesmente fluir-me,
Sem preocupar-me com o esmero da palavra,
Porque minha pequena alma não sabe escrever,
Só sabe sentir...

Os hindus dizem que reconhecemos as pessoas, que fazem parte de nossas “vidas passadas”, pelas mãos e olhos.
Confirmo?

Sei que nas vidas presentes, mãos e olhos são reveladores:
Desvendam personalidades,
Expressam corações...
Como alguém oferece suas mãos e nos olha
É tal como o murmúrio dos segredos infantis:
Só não entende quem não quer.

Mãos acariciam com ternura e olhos envolvem por inteiro.
Encontros...
Mãos acenam um adeus e olhos dizem “eu sempre vou te amar”.
Desencontros...

Adoro mãos com intenção do bem.
Adoro oferecer minhas mãos.
São sempre quentes.
Adoro as mãos de todas as pessoas de quem gosto...
As primeiras mãos que amei foram as de minha mãe.
Minha filha amou as minha.
As mesmas palavras ditas,
Retidas,
Repetidas:
Abrigo, proteção...

Adoro olhar as pessoas com quem falo.
Meu olhar tem palavra de honra:
Nunca mente...
Conheci poucos olhares como o meu.
Dizem que é lindo. Também acho.
Meu olhar também é vidente.
Pressente.
Infelizmente?

Mãos: pincéis para desejos.

Olhos: janelas para o mundo.

E somos nós os mestres de nossas escolhas...

Alguns escancaram as janelas. Querem ver tudo!
Pintam telas gigantes, coloridas, versáteis...
Outros só conseguem bisbilhotar pelas frestas. Temem enxergar além!
Traçam singelos esboços...

E assim todos vivem
E alguns se perdem...

Preciso sair do jardim...

(Autora: Cris Lopes)

domingo, 11 de abril de 2010

Secreto Inverno


O salão amplo, iluminado pelo sol de outono, ostenta ainda a decoração da última festa de aniversário. Balões coloridos e feixes ondulantes de serpentina contornam o teto, intactos. A semelhança das alvas cabeleiras paralisa-me no portal por alguns segundos, enquanto a localizo. Não avisei que chegaríamos e, quando nos aproximamos, ela nos estende a saudade com os braços... A envolvemos ternamente...

Deixo que minha filha comece a contar-lhe todas as novidades. Quieta, em sua cadeira, sorri meio sem graça. A contemplo nos seus noventa e cinco anos. O tempo parece ter se enganado desde o último mês. Pela primeira vez causa-me estranheza. A timidez ou a quietude nunca nortearam seu comportamento. A curiosidade e a tagarelice sempre foram seus eficientes tentáculos para controlar tudo e todos.

Nossa comunicação é íntima e silenciosa. Nossos olhares compartilhados denunciam o desconforto da nova situação. Nas frases repetidas, entrelinhas, as nuances em seu rosto parecem se desculpar por não conseguir mais ser a mesma... Compadeço-me amedrontada pelo presente e ameaçada pelo meu próprio futuro.

Silene, sentada próxima, balança a boneca junto ao coração, escondida em pensamentos vazios. Reflexiva, acompanho o ininterrupto ninar de mentira. Outros olhares atentos desejam saber se a criança já dorme. Expressões petrificadas revelam sonhos incrustados e completam o cenário insólito, perfeitamente organizado.

O aroma costumeiro de sabores intromete-se no cheiro das roupas limpas e no relato das novidades. A moça robusta da copa aproxima-se com um prato raso de plástico branco. No entanto, a boneca teima em permanecer naqueles encolhidos braços. Surpreendo-me com a forte resistência do corpo miúdo. Minha avó, mais desconcertada do que antes, explica-me a rotina de Silene: os alimentos precisam ser derramados em pacientes colheradas, porque ela não suporta mais comer. Pergunto-lhe sobre a boneca. A lucidez altiva tenta desculpar os trejeitos da anciã. Revela que ninguém consegue separá-la da menina de plástico e que tem uma filha. Penso o quanto ela deve ter sido uma boa mãe e a compreendo profundamente.

Atenta ao nosso diálogo, minha filha parece reflexiva, enquanto a barreira desdentada testa a persistência da copeira. Num salto, a análise ganha ação e se posiciona junto a dupla que trava sua batalha. A jovialidade sábia e sensível comenta que a boneca é bonita, mas que ainda seria mais linda se comesse e ficasse forte. A barreira se abre no sorriso da boca oca e recebe a primeira colher cheia. As outras descem distraídas. A boneca feliz se empina para mostrar a saia nova. A funcionária da copa, aliviada e agradecida, sorri também pela primeira vez.

Pratos, copos e talheres são distribuídos aos que ainda se alimentam sem ajuda. Depois, há rodízio diante dos corpos contorcidos e paralíticos. Movimentos emprestados garantem a sobrevivência.

Minha avó se despede. Parece não querer nosso testemunho ao seu dominical almoço. No entanto, caducamos o seu apelo e permanecemos, sem o mínimo desejo de partir. Posicionamos a cadeira da “Iaiá” próxima à mesa. O risoto chega e o feijão vem depois num pequeno pote separado. Pergunto-me desde quando ela gosta da comida assim. Sempre impliquei com a mania que tinha de misturar toda a refeição. Mais uma vez a desconcertante comunicação sem palavra. Ela me lança um olhar de soslaio embaraçado. Nunca pensei que, na minha vida, espionaria um pote de feijão!

As estações vestem e despem as perenes naturezas com suas distintas formas mutáveis...

O calendário, lá fora, assinala o outono. No entanto, para todos eles, o inverno já chegara... O tremor, a secura e a escassez fazem com que a simples tarefa de comer necessite de muita concentração, empenho e coragem. Em cada colherada minha avó revela-se a guerreira, a mulher de fibra de outrora. O talher é depositado ao lado do prato vazio. O feijão é suspenso como oferenda e o último a ser sorvido aos goles . Compreendo agora o pote.

O vento espalha a chuva...

A forma hibernada já não me provoca mais estranheza. Reconheço nela a mulher que sempre chamei de minha vó e a admiro mais do que antes...

Cris Lopes

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ser


Nascemos, crescemos e morremos...
É tão simples o ciclo em si.
Contudo, viver encerra muito mais do que existir.
Para viver é preciso ser e para ser é preciso vibrar!
Vibrar é potencialidade em ação, em intensidade.
Vibrar é deixar a vida fluir sem obstáculos.
Infelizmente, algumas vezes, os sofrimentos nos enlaçam inesperadamente.
Cruelmente nos esvaziam da alegria vibrante que permeia a vida dos bons de coração.
E, a princípio, continuamos a existir por simples fisiologia.
Pensamos que não seremos capazes de suportar, que sucumbiremos à loucura
ou que jamais reencontraremos a nossa alma.
Como viver sem vibrar?
Como existir sem viver?
Como ser obscuro rascunho de si próprio?
Arrebatados dos sonhos idealizados,
Somos lançados ao abismo mais profundo...
O abismo interior, recôndito lugar. misterioso e sombrio.
Ficamos quietos: sozinhos e encolhidos. Diminuídos, ressecados.
Somos crianças velhas: choramos, soluçamos e desidratamos.
Claro que o abismo, invisível aos olhos humanos, pode acontecer enquanto falamos, caminhamos ou trabalhamos.
O processo é todo visceral e corrosivo. É íntimo e secreto. Mata como veneno silencioso.

E, quando você está lá, no seu próprio e solitário abismo, perdido de si, sem aparente saída, começa a pensar em Deus.
Pergunta a Ele: por que, Deus? O que fiz para merecer esse sofrimento?
Talvez, você não encontre respostas aqui e agora.
No entanto, com os pés firmados no âmago de si mesmo, você olha para cima e vê o céu se abrir,
a dualidade da existência, a respiração do universo que conspira por nós...
E a vida continua, esteja ela em qualquer dimensão, desejosa de pulsar.

Assim, compreendemos que no amor não há lugar para o medo, a culpa, o ódio.
Que merece saudade quem nunca desejou partir...
Que o mal que nos fazem não consegue adoecer nossa natureza boa por muito que seja...
Que amigos de verdade nunca fecham suas portas quando pedimos ajuda...
Que há pessoas que verdadeiramente e incondicionalmente nos amam
E são elas os nossos tesouros eternos...
Assim renascemos, renovamos nossos sonhos e VIBRAMOS!

(Autora: Cris Lopes)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Vida Dupla


(Tela de Augusto Gomes: Homem Sentado)

O rangido da porta prenuncia o amanhecer.
Ele, como sempre, chega com passos arrastados, disfarçando o cansaço. Esconde a camisa no pequeno guarda-roupa, como quem também deseja pendurar-se naquela escuridão. Enquanto troca de roupa, admira-a: imóvel, alva, mas ele sabe que seu corpo ganha vida quando suas mãos dedilham-lhe as formas.
Manoel sofre o esgotamento da vida dupla. O médico já o alertara. O estresse, acumulado ao longo da jornada pesada de trabalho, alterou-lhe a pressão arterial. As palpitações apressam-se em avisá-lo do perigo iminente. Precisa descansar, tirar férias. No entanto, quando retorna para casa, as crianças pulam sobre ele no sofá. Transbordam alegria nas traquinices, e ele adia o olhar para si mesmo, como se o bem fosse capaz de anular a existência do mal. Engana-se.
Márcia aparece sempre por último. A proximidade dela não lhe acalenta o coração como o abanar do rabinho de Chuvisco ou a ciranda das crianças a sua volta. Todas as noites, contudo, ele beija a face da mulher. Reconhece nela uma boa companheira que merece mais, muito mais do que ele é capaz de proporcionar-lhe.
A esposa continua fogosa. Entretanto, quando fazem amor, Manoel fecha os olhos. Ausenta-se. Cumpre, apenas, num ritual de desdobramento, o papel de homem. Pensa até que ponto a “outra” é a responsável pelo fim do entusiasmo às entregas da mulher. A mente distante ocupa-se daquela que, dia e noite, é a verdadeira e única senhora de sua preocupação. A que o escraviza. Mais um orgasmo. Seus poros impregnados exalam o odor da “outra”. Não entende como Márcia nunca reclama. Impossível que não perceba o cheiro tão presente. Impossível que não sofra pelas madrugadas de cama vazia.
Odeia o espelho do banheiro. Se não fosse a vasta barba já o teria partido em mil pedaços. Seus olhos lacrimejam quando o homem, de mais de cinqüenta, ri impiedoso dos seus trinta e poucos anos.
Finalmente, só ele e ela. A magia, a cada encontro, nos últimos seis anos, parece incrementar-se. Tão deliciosa, a alquimia transborda em movimentos desavergonhados, rápidos, violentos. Quanto mais ele a toca, mais urge a sensação de suas mãos largas, ágeis, ousadas. Muitas vezes ele enlouquece. Odeia a submissão de suas formas e a maltrata. Sem piedade, bate-lhe com força. Ela, despudorada, gosta. Sorve suas pancadas sem dor. Ele grita, geme. Hoje tudo é diferente: depois, ele dá o último suspiro e desmancha-se sobre a mesa. Perdida, ela gruda-se ao corpo inerte dele.
Portas cerradas. Pessoas correm atrasadas pela espera. Vem e voltam preocupadas. A vizinhança agita-se e comenta: que estranho! O que será que houve com o padeiro?
Cris Lopes

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Amor Verdadeiro



Apaixonar-se pode acontecer quando duas pessoas despertam alguma forma de encantamento uma na outra. A vida ganha um novo colorido e há mais disposição para realizar as tarefas diárias, porque a vida transborda, vibra diferente.

O fato é que ao nos apaixonarmos, iniciamos algo que pode ser apenas “um melodioso e atraente canto de sereia”, ilusório e passageiro.

O tempo é o único capaz de revelar o que realmente existe. Quando as impressões e sensações do começo do romance são equivocadas, a convivência esvazia a relação. No entanto, se existem afinidades naturais, além de atração sexual e objetivos em comum, há de se ter a fonte de água e de sol necessária para que, no terreno fértil, se desenvolva o seu fruto: o verdadeiro amor, sentimento maravilhoso que nos faz sentir que na presença do outro somos algo a mais e muito especial. E assim o amor nos celebra com sorrisos, certezas, harmonia, alegrias e fartura. Desconhece lágrimas, incertezas, conflitos e escassez. É simples e flui fácil. É leve e tem asas próprias. Quer voar junto para o mesmo ninho e ali viver com a sensação de que nada falta e não falta mesmo...

A maioria das pessoas não vive um grande amor só “por sorte” ou “por acaso”. Vivem porque essencialmente estão prontas para vivê-lo, e assim o vivem por merecimento. Merecimento que requer generosidade, desprendimento e, principalmente, maturidade emocional. Para amar é preciso querer proporcionar e receber. É preciso mergulhar sem medo e ser capaz de compreender o outro com sinceridade, franqueza. É preciso que haja cumplicidade, confiança e respeito. É preciso desejar ter uma vida compartilhada e ser capaz de olhar para o outro, sem idealizar uma relação pronta. Amor requer uma construção a dois, sempre com a disposição para se reinventar no que for possível e aceitar os próprios limites e os do outro. O amor não rouba a individualidade, ele soma e oferece parceria.

Não se pode ser econômico para amar, porque o amor é farto. É farto em sorrisos, em conversas, em aconchego.

Quem ama de verdade não há de ser perfeito, mas necessita ser generoso em fazer o outro germinar e se permitir germinar. Germinar para a vida e crescer por si mesmo e de mãos dadas, porque o amor revela o que há de melhor em cada um, sempre com muito carinho...

(Cris Lopes)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Os Amantes


Rodrigo silencioso saboreia seu café da manhã. Segura a xícara fumegante na mão direita e o jornal na esquerda. Vez por outra, sobre os óculos, lança um olhar furtivo para Dulce.
Admira a esposa que nunca admite cansaço ou tristeza.
Desde o primeiro encontro, a disposição dela para viver o conquistou. Ela oferece equilíbrio à alma sombria e romântica dele. A presença daquela mulher, alegre e generosa, representa o sol que aquece os seus dias. A luz que ilumina o caminho por onde adora seguir e colher flores.
Se alguém lhe perguntasse o que mais gostava nela, com certeza responderia que tudo, desde o seu cheiro até seu sorriso. O jeito simples de menina e a sensualidade de mulher lhe aguçam os sentidos masculinos. As virtudes e até mesmo os defeitos da esposa agradam-lhe o coração apaixonado.
Sempre ri sozinho ao relembrar os puxões que recebe quando alguma mulher se aproxima mais assanhada. Dulce assume seu ciúme dizendo bem “baixinho” para que todos possam ouvir: essa criatura está pensando o que?
Rodrigo, nessas ocasiões, repreende o exagero da mulher com seriedade, mas gargalhadas explosivas, escondidas, ecoam e o preenchem de orgulho ao sentir o quanto Dulce o quer só para ela. Apesar da vaidade, o bom senso o aconselha a frear os ímpetos da esposa. Morreria com esse segredo. Se lhe apoiasse, ela poderia se inspirar no poema Briga No Beco da Adélia Prado e pular na jugular de outra. Então, depois disso, quais milagres Dulce seria capaz de fazer?
Ao longo de todos aqueles anos de casamento, o sexo vivenciado era lúdico, intenso, criativo, farto. Pertencer a ela se revelava, na intimidade de amantes, uma dádiva dos céus. Jamais ouviu um único não a seus desejos. Tudo era possível, permitido, consentido, experimentado. Após as noites celebradas pelos orgasmos múltiplos da mulher, adorava sair bem cedo e comprar flores do campo, as preferidas de Dulce. Inúmeras vezes repousava o perfume e as cores sobre a seda de dormir que ainda sonhava com as carícias ousadas dele. Cobria-lhe assim o corpo amado como se quisesse presenteá-lo, por inteiro, pela plenitude do prazer alcançado. Nessas manhãs, Dulce despertava preguiçosamente, o olhava com ternura, e pedia para que a abraçasse mais e mais forte, enquanto lhe sussurrava: é no seu abraço que encontro o meu lugar! Rodrigo sentia, nesses profundos e inesquecíveis momentos de carinho, o quanto era maravilhosa a sensação de amar e ser amado.
A voz de Dulce, ao longe, o sequestra de seus devaneios. Era preciso concluir uma defesa e mandá-la para o fórum.
Já a caminho do escritório, inspirado pelas lembranças, decide que compraria o vinho tinto preferido da esposa quando retornasse para casa.
Sobe o elevador do décimo segundo andar de seu escritório com a imaginação navegando nas ondas escarlates. A boca discreta denuncia um sorriso maroto. Pensa que talvez fosse melhor comprar muitas garrafas.
Sua mente age na velocidade urgente de suas fantasias. E, assim, antes da hora do almoço, entrega o processo concluído para a secretária.
Rodrigo sai do trabalho, compra os vinhos e deixa o carro no posto mais perto de casa para uma geral. Deseja surpreender Dulce que só o espera no fim da tarde. Vai levá-la para dançar em algum lugar agradável, especial naquela noite. Planeja tudo perfeito em detalhes.
Entra pela porta dos fundos, passa pela cozinha, mas ela não está lá. Abandona os sapatos, o terno e a gravata na sala de jantar. O som ligado toca baixinho B.B. King. Vai até o quarto e a encontra completamente nua, agasalhada, protegida, coberta pelo corpo de outro homem. Dormem profundamente com braços e pernas entrelaçados. Os cabelos negros, esparramados na cama, escondem o rosto do amante, apoiado em seu pescoço. A displicência da cena captada por seus olhos cega-lhe o cérebro. As garrafas explodem contra as paredes do vazio. O alvo atingido, em seguida, é a própria jugular. Sangue e vinho se misturam. Inútil, o escarlate jorra sem milagres...
Cris Lopes

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Para você Patrícia


Hoje o céu ganhou uma nova estrela.
Patrícia é seu nome. Patrícia - mãe, Patrícia - filha, Patrícia - mulher... Mulher guerreira como tantas outras que não desistem da luta, mesmo que a luta seja a mais dolorosa, a mais desafiante, a luta derradeira, porque são seres de amor e de luz.
Sem queixumes, Patrícia generosamente sempre tentou silenciar a própria dor para não agravar mais ainda o sofrimento de todos aqueles a quem tanto amava e que, impossíveis de intervir no curso de seu adoecimento, sentiam o peso da inutilidade, da impotência avassaladora... Pessoas que também a amavam e que camuflavam a dor de vê-la partindo, aos poucos, para que se sentisse mais tranqüila. Pessoas que rezaram fervorosamente pelo milagre de sua permanência entre nós...
No entanto, é preciso compreender além do desejo, fonte do apego, que o Pai Celestial é misericordioso e há mistério em seus desígnios que não nos é possível entender completamente. Aceitar que era chegado o momento de vê-la descansar de esforços que a esgotavam, dia após dia, é a razão que deve nos orientar para o difícil caminho da resignação.
Amada, querida, repleta de coragem e tenacidade, Patrícia fez sua passagem para o invisível aos miúdos olhos humanos. Entretanto, a certeza que emana da fé, a certeza que emana do amor, nos fortalece sempre com a grande verdade de que, de alguma maneira, em algum outro lugar, todos que se amam celebrarão maravilhosos reencontros. Esse é o maior consolo dos corações que fazem moradia ao amor verdadeiro: a permanência da emoção e a ligação por toda a eternidade.
Aconchegada pelo carinho construído nessa existência passageira e profunda, Patrícia nunca esteve sozinha e nunca estará.
Recebida pelos espíritos amigos e familiares que a precederam na travessia dessa vida e, de tantas outras vidas, Patrícia alegra as almas que a esperavam perfumadas de amor.
Patrícia que gostava de adormecer ao embalo das antigas cantigas de ninar, despertará, a partir de agora, com as vozes melodiosas dos anjos. E, permanecerá viva sempre, porque viva realmente está e seguirá seu caminho de luz, porque em essência o bem se expande e se multiplica.
Aqueles que aqui permanecem, com sua partida, sentem tristeza e saudade, mas bendito e abençoado é o tempo que transmuta a dor. E é o amor altruísta que conduz ao esforço diário de querer contribuir para a sua paz. Assim é que todos continuarão a amando e a auxiliando no êxito de sua nova jornada... Receba Patrícia, a cada dia, o nosso amor.
Cris Lopes

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ser Mãe


(Tela de Gustav Klimt: Mãe e filho)

Ser mãe é ter a alma perfumada, perfeita, repleta de amor,
E no desejo permanente de sempre acertar,
Cometer pequenos e grandes enganos,
E assim, tão solitária, quando se sentir imperfeita,
Gritar, chorar, rezar, se perdoar e seguir adiante,
Confiante que, no futuro, os mais ajustados gestos
Serão aprendizes dos pequenos erros de anos...

Ser mãe é povoar o mundo de emoção,
Acordar no meio da madrugada e cantar uma canção...
Enfrentar os próprios medos
E guardar segredos no coração.
Desenvolver a magia da intuição:
Ler o que jamais foi escrito,
Ouvir o que ainda não aconteceu e nem foi dito,
Escolher entre o sim e o não,
E rechear com palavras que façam soar mais bonito,
Sem que pareça uma lição.

Ser mãe é viver com intensa alegria dia após dia:
Fazer bolo de chocolate, comer pipocas, rolar no chão
E assistir mil vezes o mesmo desenho na televisão.
Montar cabana de lençóis no meio da sala,
Ser chamada de tia por crianças a sua volta.
Comprar o primeiro sutiã branco de algodão,
Surpreender com flores a primeira menstruação,
E não perder nenhum capítulo da novela que é cada paixão.

Ser mãe é cuidar bem, zelar com carinho, sem reprimir.
Caminhar ao lado e deixar livre no momento de sozinha seguir...
Ser mãe é estar sempre presente, mesmo quando longe ou ausente,
E viver a vida vibrante, com a certeza de que é maior, infinito,
Inesquecível, imortal o amor que sente...
Cris Lopes

Momento de Luz


(Tela de Géssica Hellmann: Íris grávida)

Oh, Lua!
Repousas em meu ventre,
Resplandescente,
Em quarto crescente,
Vivente tesouro,
Secreto de amor.
Meu pequenininho-grande amor:
Ísis.
Até hoje e para sempre
É teu o meu coração...
Cris Lopes

domingo, 9 de agosto de 2009

Vida


(Tela de Mônica Santana: Ciranda Margaridas)

Vida
Amiga
Vida
Querida
Vida
Despedida
Vida
Sofrida
Vida
Sortida
Vida
Sorvida

Vida
Ida
Vida
Vivida
Vida
Convida
Vida
Vinda
Vida
Ainda
Vida
Linda

Vida
Revida
Vida
Revivida
Vida
Bem-vinda!
Cris Lopes

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O menino e a pipa


( Tela de Marcos Andruchak, 2004: Pipas)

O sol mergulha indolente no mar. Aprecio a brincadeira, sentada no calçadão, enquanto meu pensamento dispersa imagens no horizonte. O vento, faceiro, abana a paisagem e o verde das águas respinga a cor de esmeraldas no ar. Envolvida pelas sensações alegres da natureza, percebo o menino na praia. Deve ter uns nove anos. Corre de um lado para o outro, hábil em manter o domínio sobre sua pipa. No pontal, do alto das pedras, outro garoto, numa posição mais estratégica, guia sua linha e começa a desenhar no céu o duelo com o adversário veloz na beira-mar.
Testemunho o esforço do menino na areia. Confesso que minha torcida é pela vitória dele. No entanto, em poucos minutos, o oponente das alturas lhe ganha a pipa. Agora, o menino não corre mais. Agacha-se na areia, apoia o rosto nos joelhos e abraça a cabeça com os braços como a querer esconder-se de si mesmo. Resolvo aproximar-me e, já a seu lado, ouço um choro baixo e escondido. Sento e falo, dissimulando não perceber o desconforto da situação: “Nossa, o mar está lindo!” Ele retruca aborrecido, sem me olhar: "Não acho!" Então, falo meu nome e quero saber o dele. Em seguida, conto que também tenho um amigo que se chama Fabiano. Pergunto se ele está chateado. Parece que deseja conversar. Logo revela que mora ali perto e que adora soltar pipas. Depois de uma pequena pausa, confessa estar zangado porque perdeu a pipa de que mais gostava para outro garoto. Penso por algum tempo e finalmente concordo: "Ah, entendo. Já perdi também algumas coisas que gostava muito, e posso te contar um segredo?" Espero, enquanto ele decide se quer ouvir. A demora é de apenas alguns segundos, não muitos, porque acho que, como a maioria das crianças, ele é bem curioso. Enfim, esfrega o rosto com o dorso das mãos, levanta a cabeça e, pela primeira vez, me dá uma olhada de soslaio. Balança os ombros como quem informa que “você é quem sabe, se quiser...”. Foi a minha deixa: "Ah, quer saber? Acho que sua pipa também gosta muito de você!" Nessa altura da conversa, ele coça a orelha e pensa não ter ouvido direito. Desconfiado, olha para mim e, num sorriso, misto de ironia e timidez, retruca: "E desde quando pipa gosta de alguém?" Foi a minha vez de rir e perguntar: "Fala uma coisa: Você só está chateado pelo fato de ter perdido sua pipa preferida?" Ele pensa e confessa: "Não, estou triste comigo mesmo, porque não sou esperto. E o pior de tudo é que, quando voltar para casa, vou achar muito chato ter que contar o que aconteceu para os meus pais. Eles vão dizer que sou um bobo!" Continuo: "Hum, eu não acho que você é bobo. Estava sentada lá, naquele banco do calçadão e vi tudo. Você foi muito esperto! Correu bastante e se esforçou até o final. Por isso digo que a sua pipa também gosta muito de você! Ela lhe revelou a vontade de vencer e mostrar o quanto você é capaz de lutar pelo que deseja. Foi o instrumento para testar sua coragem, entende? Em minha opinião você é um vencedor! Sabe, nem sempre quem ganha é o melhor, o verdadeiro vencedor. Você estava numa posição pior do que a do outro menino, contra o vento e, mesmo assim, ele teve muito trabalho para ganhar sua pipa. Afirmo até que, diante das circunstâncias, você é muito mais habilidoso do que ele. A vida sempre oferece oportunidades para nos testar e nos revelar nossos potenciais. É assim que a gente aprende a ser melhor."
Já escurecia. Fabiano avisa que precisa ir embora. Agradece pela força e fala que vai contar aos pais como havia lutado, com agilidade e esforço, para defender sua pipa até o final. Corre alguns metros. Para. Olha para trás e, sorrindo, me pergunta: "Qual é mesmo o seu nome?" "Carolyne." Saltitante, ele desaparece. Como faz bem soltar uma pipa de vez em quando!
Cris Lopes