domingo, 20 de junho de 2010

Moça da roça


(Tela de Di Cavalcanti: Mulheres com frutas)

Quero um amor assim
Com sabor de fruta madura,
Colhida “na vez”,
Ofertada do pé!

“É doce, moça, tão doce...”
“Mode tomou injeção de açúcar, meu sinhô?”

Quero um amor assim
Feito dia de verão
Quando criança gulosa
Recebe na mão
Manga Rosa,
Manga sem casca!

“Eita, fruta gostosa!”

Agrada a boca.
Devagar, em lasca,
Deixa a fome tão louca
Que só uma fruta é pouca!

A vontade instiga,
Mastiga até o caroço,
Lambe a fruta em fileira.
Morde todinha pela beira!

“Ô, moça faceira...”
“Ô, meu sinhô...”
“Quando chupa manga se lambuza, viste?”
“Entonces, que ninguém me veja, porque desejo é outra inteira!”
“Eita, moça gulosa! Manga é fruta grande. Tá comendo kinem cereja!
“ Vixe, Maria! Esconjuro, pé-de-pato, mangalô três vezes!!!
Uai, sô! Ocê já viste moça da roça gostar de tiquim, de fruta pequena?”
(Autora: Cris Lopes)
Minas Gerais, meu lar há 11 anos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010



SORRIA!
VOCÊ NÃO ESTÁ
SENDO
FILMADO
( by Cris Lopes)

"Palavras criam personagens que conquistam vida genuína com atitudes!"
(Autora: Cris Lopes)

Quem sou eu?


Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho,
Esquecida de quem fui,
Estranha de quem serei.

Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho
Rodopiando ao vento,
Vencida, solta na chuva,
Sem refúgio, ao relento.
Extraída da vida
Sem raízes, sem teu carinho...

Quem sou eu?
Uma mulher no meio do caminho
Inventando asas,
Esperando o sol volver,
Abrindo céus para voar até você!

Quem sou eu?
EU SOU, simplesmente,
UMA MULHER, corpo e mente,
Que não se aquieta
E não sossega o que sente!
(Autora:Cris Lopes)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Adeus, Iaiá


Madrugada fria:
Passos,
Descompassos,
Ninguém sorria.

Longe, tudo tão perto.
As últimas horas:
Solidão, dor, agonia...

O corpo coberto,
O olhar incerto...
As mãos cerradas,
As palavras guardadas...

A luz resplandece no quarto sombrio.
Anuncia o momento da travessia.
Vozes amigas confortam-lhe o vazio:
Vamos?
Ela, lúcida, agradece e confia.
No rosto enrugado
Um esboço de alegria.
Nos outros:
Muitas lágrimas...
(autora: Cris Lopes)

(Tela de Nelson Screnci: Sorrisos Anônimos)

Com as pessoas
Aprendo,
Desaprendo,
Reaprendo
Um pouco
De quase tudo!
Cris Lopes
A Inteligência sem generosidade e sensibilidade
É tal como agulha sem linha:
Não alinhava, não remenda,não costura nada...
Cris Lopes





Chamada Atendida... Engano, Desencanto.


Teus olhos, amor,
Entristeceram-se nas paredes vazias.
Desejastes vê-las repletas de lindos enfeites...
E eu, que te amava tanto,
Aprendi a tecer estrelas
Só para o azul do teu olhar sorrir
E o Ano Novo conspirar
Ao teu contentamento...

Teu corpo, amor
Sofria de frio.
Desnudavam-te os panos,
Afagos, deleites ausentes de anos...
Quantas noites sem carícias, sem malícias,
Despertaram-te as manhãs sem euforia?
Doíam os teus pés,
Tuas costas também doíam,
Doía e só doía.
Doía tudo e doía onde ninguém via.

E eu, que te amava tanto,
Agasalhei-te com meu corpo,
Naufraguei as mãos em teus tecidos,
Sem descanso, sem gemidos,
E olvidei meus próprios gritos...

Tua alma, amor,
Sem inspiração,
Instável, sozinha,
Artista em pedaços,
Contraía falas,
E nada concebia...

E eu, que te amava tanto,
Alinhavei-te o pranto,
Teci enredos, novelos de contos,
Suspensos fios, sem pontos...

Por quanto quisestes,
Fui tua amante e tua amiga.
Perfumei de alecrim tuas feridas.
Atapetei o chão de rosas às tuas voltas,
Arranquei-te lágrimas contidas, agradecidas!
Abri todas as janelas,
Destranquei todas as portas.
Entreguei, confiei a ti o sol
E a alegria da minha vida!

E eu, que te amava tanto,
Abençoei teu rumo sem encanto!
No entanto,
Ceguei-me,
Desnudei-me,
Amaldiçoei-me...

E eu, que te amava tanto,
Recolhi-me no meu canto,
Sem nunca mais conseguir, amor, dizer-te
Adeus...

(Autora: Cris Lopes)

sexta-feira, 14 de maio de 2010


(Pintura original de Frieda Harris: O Mundo- Lâmina do Thoth Tarot de Aleister Crowley)

Flores parecem flutuar...
Perfume,
Meu jardim,
Meu mundo, profundo,
Então, permito-me deitar sobre a grama
E simplesmente fluir-me,
Sem preocupar-me com o esmero da palavra,
Porque minha pequena alma não sabe escrever,
Só sabe sentir...

Os hindus dizem que reconhecemos as pessoas, que fazem parte de nossas “vidas passadas”, pelas mãos e olhos.
Confirmo?

Sei que nas vidas presentes, mãos e olhos são reveladores:
Desvendam personalidades,
Expressam corações...
Como alguém oferece suas mãos e nos olha
É tal como o murmúrio dos segredos infantis:
Só não entende quem não quer.

Mãos acariciam com ternura e olhos envolvem por inteiro.
Encontros...
Mãos acenam um adeus e olhos dizem “eu sempre vou te amar”.
Desencontros...

Adoro mãos com intenção do bem.
Adoro oferecer minhas mãos.
São sempre quentes.
Adoro as mãos de todas as pessoas de quem gosto...
As primeiras mãos que amei foram as de minha mãe.
Minha filha amou as minha.
As mesmas palavras ditas,
Retidas,
Repetidas:
Abrigo, proteção...

Adoro olhar as pessoas com quem falo.
Meu olhar tem palavra de honra:
Nunca mente...
Conheci poucos olhares como o meu.
Dizem que é lindo. Também acho.
Meu olhar também é vidente.
Pressente.
Infelizmente?

Mãos: pincéis para desejos.

Olhos: janelas para o mundo.

E somos nós os mestres de nossas escolhas...

Alguns escancaram as janelas. Querem ver tudo!
Pintam telas gigantes, coloridas, versáteis...
Outros só conseguem bisbilhotar pelas frestas. Temem enxergar além!
Traçam singelos esboços...

E assim todos vivem
E alguns se perdem...

Preciso sair do jardim...

(Autora: Cris Lopes)

domingo, 11 de abril de 2010

Secreto Inverno


O salão amplo, iluminado pelo sol de outono, ostenta ainda a decoração da última festa de aniversário. Balões coloridos e feixes ondulantes de serpentina contornam o teto, intactos. A semelhança das alvas cabeleiras paralisa-me no portal por alguns segundos, enquanto a localizo. Não avisei que chegaríamos e, quando nos aproximamos, ela nos estende a saudade com os braços... A envolvemos ternamente...

Deixo que minha filha comece a contar-lhe todas as novidades. Quieta, em sua cadeira, sorri meio sem graça. A contemplo nos seus noventa e cinco anos. O tempo parece ter se enganado desde o último mês. Pela primeira vez causa-me estranheza. A timidez ou a quietude nunca nortearam seu comportamento. A curiosidade e a tagarelice sempre foram seus eficientes tentáculos para controlar tudo e todos.

Nossa comunicação é íntima e silenciosa. Nossos olhares compartilhados denunciam o desconforto da nova situação. Nas frases repetidas, entrelinhas, as nuances em seu rosto parecem se desculpar por não conseguir mais ser a mesma... Compadeço-me amedrontada pelo presente e ameaçada pelo meu próprio futuro.

Silene, sentada próxima, balança a boneca junto ao coração, escondida em pensamentos vazios. Reflexiva, acompanho o ininterrupto ninar de mentira. Outros olhares atentos desejam saber se a criança já dorme. Expressões petrificadas revelam sonhos incrustados e completam o cenário insólito, perfeitamente organizado.

O aroma costumeiro de sabores intromete-se no cheiro das roupas limpas e no relato das novidades. A moça robusta da copa aproxima-se com um prato raso de plástico branco. No entanto, a boneca teima em permanecer naqueles encolhidos braços. Surpreendo-me com a forte resistência do corpo miúdo. Minha avó, mais desconcertada do que antes, explica-me a rotina de Silene: os alimentos precisam ser derramados em pacientes colheradas, porque ela não suporta mais comer. Pergunto-lhe sobre a boneca. A lucidez altiva tenta desculpar os trejeitos da anciã. Revela que ninguém consegue separá-la da menina de plástico e que tem uma filha. Penso o quanto ela deve ter sido uma boa mãe e a compreendo profundamente.

Atenta ao nosso diálogo, minha filha parece reflexiva, enquanto a barreira desdentada testa a persistência da copeira. Num salto, a análise ganha ação e se posiciona junto a dupla que trava sua batalha. A jovialidade sábia e sensível comenta que a boneca é bonita, mas que ainda seria mais linda se comesse e ficasse forte. A barreira se abre no sorriso da boca oca e recebe a primeira colher cheia. As outras descem distraídas. A boneca feliz se empina para mostrar a saia nova. A funcionária da copa, aliviada e agradecida, sorri também pela primeira vez.

Pratos, copos e talheres são distribuídos aos que ainda se alimentam sem ajuda. Depois, há rodízio diante dos corpos contorcidos e paralíticos. Movimentos emprestados garantem a sobrevivência.

Minha avó se despede. Parece não querer nosso testemunho ao seu dominical almoço. No entanto, caducamos o seu apelo e permanecemos, sem o mínimo desejo de partir. Posicionamos a cadeira da “Iaiá” próxima à mesa. O risoto chega e o feijão vem depois num pequeno pote separado. Pergunto-me desde quando ela gosta da comida assim. Sempre impliquei com a mania que tinha de misturar toda a refeição. Mais uma vez a desconcertante comunicação sem palavra. Ela me lança um olhar de soslaio embaraçado. Nunca pensei que, na minha vida, espionaria um pote de feijão!

As estações vestem e despem as perenes naturezas com suas distintas formas mutáveis...

O calendário, lá fora, assinala o outono. No entanto, para todos eles, o inverno já chegara... O tremor, a secura e a escassez fazem com que a simples tarefa de comer necessite de muita concentração, empenho e coragem. Em cada colherada minha avó revela-se a guerreira, a mulher de fibra de outrora. O talher é depositado ao lado do prato vazio. O feijão é suspenso como oferenda e o último a ser sorvido aos goles . Compreendo agora o pote.

O vento espalha a chuva...

A forma hibernada já não me provoca mais estranheza. Reconheço nela a mulher que sempre chamei de minha vó e a admiro mais do que antes...

Cris Lopes

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ser


Nascemos, crescemos e morremos...
É tão simples o ciclo em si.
Contudo, viver encerra muito mais do que existir.
Para viver é preciso ser e para ser é preciso vibrar!
Vibrar é potencialidade em ação, em intensidade.
Vibrar é deixar a vida fluir sem obstáculos.
Infelizmente, algumas vezes, os sofrimentos nos enlaçam inesperadamente.
Cruelmente nos esvaziam da alegria vibrante que permeia a vida dos bons de coração.
E, a princípio, continuamos a existir por simples fisiologia.
Pensamos que não seremos capazes de suportar, que sucumbiremos à loucura
ou que jamais reencontraremos a nossa alma.
Como viver sem vibrar?
Como existir sem viver?
Como ser obscuro rascunho de si próprio?
Arrebatados dos sonhos idealizados,
Somos lançados ao abismo mais profundo...
O abismo interior, recôndito lugar. misterioso e sombrio.
Ficamos quietos: sozinhos e encolhidos. Diminuídos, ressecados.
Somos crianças velhas: choramos, soluçamos e desidratamos.
Claro que o abismo, invisível aos olhos humanos, pode acontecer enquanto falamos, caminhamos ou trabalhamos.
O processo é todo visceral e corrosivo. É íntimo e secreto. Mata como veneno silencioso.

E, quando você está lá, no seu próprio e solitário abismo, perdido de si, sem aparente saída, começa a pensar em Deus.
Pergunta a Ele: por que, Deus? O que fiz para merecer esse sofrimento?
Talvez, você não encontre respostas aqui e agora.
No entanto, com os pés firmados no âmago de si mesmo, você olha para cima e vê o céu se abrir,
a dualidade da existência, a respiração do universo que conspira por nós...
E a vida continua, esteja ela em qualquer dimensão, desejosa de pulsar.

Assim, compreendemos que no amor não há lugar para o medo, a culpa, o ódio.
Que merece saudade quem nunca desejou partir...
Que o mal que nos fazem não consegue adoecer nossa natureza boa por muito que seja...
Que amigos de verdade nunca fecham suas portas quando pedimos ajuda...
Que há pessoas que verdadeiramente e incondicionalmente nos amam
E são elas os nossos tesouros eternos...
Assim renascemos, renovamos nossos sonhos e VIBRAMOS!

(Autora: Cris Lopes)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Vida Dupla


(Tela de Augusto Gomes: Homem Sentado)

O rangido da porta prenuncia o amanhecer.
Ele, como sempre, chega com passos arrastados, disfarçando o cansaço. Esconde a camisa no pequeno guarda-roupa, como quem também deseja pendurar-se naquela escuridão. Enquanto troca de roupa, admira-a: imóvel, alva, mas ele sabe que seu corpo ganha vida quando suas mãos dedilham-lhe as formas.
Manoel sofre o esgotamento da vida dupla. O médico já o alertara. O estresse, acumulado ao longo da jornada pesada de trabalho, alterou-lhe a pressão arterial. As palpitações apressam-se em avisá-lo do perigo iminente. Precisa descansar, tirar férias. No entanto, quando retorna para casa, as crianças pulam sobre ele no sofá. Transbordam alegria nas traquinices, e ele adia o olhar para si mesmo, como se o bem fosse capaz de anular a existência do mal. Engana-se.
Márcia aparece sempre por último. A proximidade dela não lhe acalenta o coração como o abanar do rabinho de Chuvisco ou a ciranda das crianças a sua volta. Todas as noites, contudo, ele beija a face da mulher. Reconhece nela uma boa companheira que merece mais, muito mais do que ele é capaz de proporcionar-lhe.
A esposa continua fogosa. Entretanto, quando fazem amor, Manoel fecha os olhos. Ausenta-se. Cumpre, apenas, num ritual de desdobramento, o papel de homem. Pensa até que ponto a “outra” é a responsável pelo fim do entusiasmo às entregas da mulher. A mente distante ocupa-se daquela que, dia e noite, é a verdadeira e única senhora de sua preocupação. A que o escraviza. Mais um orgasmo. Seus poros impregnados exalam o odor da “outra”. Não entende como Márcia nunca reclama. Impossível que não perceba o cheiro tão presente. Impossível que não sofra pelas madrugadas de cama vazia.
Odeia o espelho do banheiro. Se não fosse a vasta barba já o teria partido em mil pedaços. Seus olhos lacrimejam quando o homem, de mais de cinqüenta, ri impiedoso dos seus trinta e poucos anos.
Finalmente, só ele e ela. A magia, a cada encontro, nos últimos seis anos, parece incrementar-se. Tão deliciosa, a alquimia transborda em movimentos desavergonhados, rápidos, violentos. Quanto mais ele a toca, mais urge a sensação de suas mãos largas, ágeis, ousadas. Muitas vezes ele enlouquece. Odeia a submissão de suas formas e a maltrata. Sem piedade, bate-lhe com força. Ela, despudorada, gosta. Sorve suas pancadas sem dor. Ele grita, geme. Hoje tudo é diferente: depois, ele dá o último suspiro e desmancha-se sobre a mesa. Perdida, ela gruda-se ao corpo inerte dele.
Portas cerradas. Pessoas correm atrasadas pela espera. Vem e voltam preocupadas. A vizinhança agita-se e comenta: que estranho! O que será que houve com o padeiro?
Cris Lopes

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Amor Verdadeiro



Apaixonar-se pode acontecer quando duas pessoas despertam alguma forma de encantamento uma na outra. A vida ganha um novo colorido e há mais disposição para realizar as tarefas diárias, porque a vida transborda, vibra diferente.

O fato é que ao nos apaixonarmos, iniciamos algo que pode ser apenas “um melodioso e atraente canto de sereia”, ilusório e passageiro.

O tempo é o único capaz de revelar o que realmente existe. Quando as impressões e sensações do começo do romance são equivocadas, a convivência esvazia a relação. No entanto, se existem afinidades naturais, além de atração sexual e objetivos em comum, há de se ter a fonte de água e de sol necessária para que, no terreno fértil, se desenvolva o seu fruto: o verdadeiro amor, sentimento maravilhoso que nos faz sentir que na presença do outro somos algo a mais e muito especial. E assim o amor nos celebra com sorrisos, certezas, harmonia, alegrias e fartura. Desconhece lágrimas, incertezas, conflitos e escassez. É simples e flui fácil. É leve e tem asas próprias. Quer voar junto para o mesmo ninho e ali viver com a sensação de que nada falta e não falta mesmo...

A maioria das pessoas não vive um grande amor só “por sorte” ou “por acaso”. Vivem porque essencialmente estão prontas para vivê-lo, e assim o vivem por merecimento. Merecimento que requer generosidade, desprendimento e, principalmente, maturidade emocional. Para amar é preciso querer proporcionar e receber. É preciso mergulhar sem medo e ser capaz de compreender o outro com sinceridade, franqueza. É preciso que haja cumplicidade, confiança e respeito. É preciso desejar ter uma vida compartilhada e ser capaz de olhar para o outro, sem idealizar uma relação pronta. Amor requer uma construção a dois, sempre com a disposição para se reinventar no que for possível e aceitar os próprios limites e os do outro. O amor não rouba a individualidade, ele soma e oferece parceria.

Não se pode ser econômico para amar, porque o amor é farto. É farto em sorrisos, em conversas, em aconchego.

Quem ama de verdade não há de ser perfeito, mas necessita ser generoso em fazer o outro germinar e se permitir germinar. Germinar para a vida e crescer por si mesmo e de mãos dadas, porque o amor revela o que há de melhor em cada um, sempre com muito carinho...

(Cris Lopes)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Os Amantes


Rodrigo silencioso saboreia seu café da manhã. Segura a xícara fumegante na mão direita e o jornal na esquerda. Vez por outra, sobre os óculos, lança um olhar furtivo para Dulce.
Admira a esposa que nunca admite cansaço ou tristeza.
Desde o primeiro encontro, a disposição dela para viver o conquistou. Ela oferece equilíbrio à alma sombria e romântica dele. A presença daquela mulher, alegre e generosa, representa o sol que aquece os seus dias. A luz que ilumina o caminho por onde adora seguir e colher flores.
Se alguém lhe perguntasse o que mais gostava nela, com certeza responderia que tudo, desde o seu cheiro até seu sorriso. O jeito simples de menina e a sensualidade de mulher lhe aguçam os sentidos masculinos. As virtudes e até mesmo os defeitos da esposa agradam-lhe o coração apaixonado.
Sempre ri sozinho ao relembrar os puxões que recebe quando alguma mulher se aproxima mais assanhada. Dulce assume seu ciúme dizendo bem “baixinho” para que todos possam ouvir: essa criatura está pensando o que?
Rodrigo, nessas ocasiões, repreende o exagero da mulher com seriedade, mas gargalhadas explosivas, escondidas, ecoam e o preenchem de orgulho ao sentir o quanto Dulce o quer só para ela. Apesar da vaidade, o bom senso o aconselha a frear os ímpetos da esposa. Morreria com esse segredo. Se lhe apoiasse, ela poderia se inspirar no poema Briga No Beco da Adélia Prado e pular na jugular de outra. Então, depois disso, quais milagres Dulce seria capaz de fazer?
Ao longo de todos aqueles anos de casamento, o sexo vivenciado era lúdico, intenso, criativo, farto. Pertencer a ela se revelava, na intimidade de amantes, uma dádiva dos céus. Jamais ouviu um único não a seus desejos. Tudo era possível, permitido, consentido, experimentado. Após as noites celebradas pelos orgasmos múltiplos da mulher, adorava sair bem cedo e comprar flores do campo, as preferidas de Dulce. Inúmeras vezes repousava o perfume e as cores sobre a seda de dormir que ainda sonhava com as carícias ousadas dele. Cobria-lhe assim o corpo amado como se quisesse presenteá-lo, por inteiro, pela plenitude do prazer alcançado. Nessas manhãs, Dulce despertava preguiçosamente, o olhava com ternura, e pedia para que a abraçasse mais e mais forte, enquanto lhe sussurrava: é no seu abraço que encontro o meu lugar! Rodrigo sentia, nesses profundos e inesquecíveis momentos de carinho, o quanto era maravilhosa a sensação de amar e ser amado.
A voz de Dulce, ao longe, o sequestra de seus devaneios. Era preciso concluir uma defesa e mandá-la para o fórum.
Já a caminho do escritório, inspirado pelas lembranças, decide que compraria o vinho tinto preferido da esposa quando retornasse para casa.
Sobe o elevador do décimo segundo andar de seu escritório com a imaginação navegando nas ondas escarlates. A boca discreta denuncia um sorriso maroto. Pensa que talvez fosse melhor comprar muitas garrafas.
Sua mente age na velocidade urgente de suas fantasias. E, assim, antes da hora do almoço, entrega o processo concluído para a secretária.
Rodrigo sai do trabalho, compra os vinhos e deixa o carro no posto mais perto de casa para uma geral. Deseja surpreender Dulce que só o espera no fim da tarde. Vai levá-la para dançar em algum lugar agradável, especial naquela noite. Planeja tudo perfeito em detalhes.
Entra pela porta dos fundos, passa pela cozinha, mas ela não está lá. Abandona os sapatos, o terno e a gravata na sala de jantar. O som ligado toca baixinho B.B. King. Vai até o quarto e a encontra completamente nua, agasalhada, protegida, coberta pelo corpo de outro homem. Dormem profundamente com braços e pernas entrelaçados. Os cabelos negros, esparramados na cama, escondem o rosto do amante, apoiado em seu pescoço. A displicência da cena captada por seus olhos cega-lhe o cérebro. As garrafas explodem contra as paredes do vazio. O alvo atingido, em seguida, é a própria jugular. Sangue e vinho se misturam. Inútil, o escarlate jorra sem milagres...
Cris Lopes

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Para você Patrícia


Hoje o céu ganhou uma nova estrela.
Patrícia é seu nome. Patrícia - mãe, Patrícia - filha, Patrícia - mulher... Mulher guerreira como tantas outras que não desistem da luta, mesmo que a luta seja a mais dolorosa, a mais desafiante, a luta derradeira, porque são seres de amor e de luz.
Sem queixumes, Patrícia generosamente sempre tentou silenciar a própria dor para não agravar mais ainda o sofrimento de todos aqueles a quem tanto amava e que, impossíveis de intervir no curso de seu adoecimento, sentiam o peso da inutilidade, da impotência avassaladora... Pessoas que também a amavam e que camuflavam a dor de vê-la partindo, aos poucos, para que se sentisse mais tranqüila. Pessoas que rezaram fervorosamente pelo milagre de sua permanência entre nós...
No entanto, é preciso compreender além do desejo, fonte do apego, que o Pai Celestial é misericordioso e há mistério em seus desígnios que não nos é possível entender completamente. Aceitar que era chegado o momento de vê-la descansar de esforços que a esgotavam, dia após dia, é a razão que deve nos orientar para o difícil caminho da resignação.
Amada, querida, repleta de coragem e tenacidade, Patrícia fez sua passagem para o invisível aos miúdos olhos humanos. Entretanto, a certeza que emana da fé, a certeza que emana do amor, nos fortalece sempre com a grande verdade de que, de alguma maneira, em algum outro lugar, todos que se amam celebrarão maravilhosos reencontros. Esse é o maior consolo dos corações que fazem moradia ao amor verdadeiro: a permanência da emoção e a ligação por toda a eternidade.
Aconchegada pelo carinho construído nessa existência passageira e profunda, Patrícia nunca esteve sozinha e nunca estará.
Recebida pelos espíritos amigos e familiares que a precederam na travessia dessa vida e, de tantas outras vidas, Patrícia alegra as almas que a esperavam perfumadas de amor.
Patrícia que gostava de adormecer ao embalo das antigas cantigas de ninar, despertará, a partir de agora, com as vozes melodiosas dos anjos. E, permanecerá viva sempre, porque viva realmente está e seguirá seu caminho de luz, porque em essência o bem se expande e se multiplica.
Aqueles que aqui permanecem, com sua partida, sentem tristeza e saudade, mas bendito e abençoado é o tempo que transmuta a dor. E é o amor altruísta que conduz ao esforço diário de querer contribuir para a sua paz. Assim é que todos continuarão a amando e a auxiliando no êxito de sua nova jornada... Receba Patrícia, a cada dia, o nosso amor.
Cris Lopes

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Ser Mãe


(Tela de Gustav Klimt: Mãe e filho)

Ser mãe é ter a alma perfumada, perfeita, repleta de amor,
E no desejo permanente de sempre acertar,
Cometer pequenos e grandes enganos,
E assim, tão solitária, quando se sentir imperfeita,
Gritar, chorar, rezar, se perdoar e seguir adiante,
Confiante que, no futuro, os mais ajustados gestos
Serão aprendizes dos pequenos erros de anos...

Ser mãe é povoar o mundo de emoção,
Acordar no meio da madrugada e cantar uma canção...
Enfrentar os próprios medos
E guardar segredos no coração.
Desenvolver a magia da intuição:
Ler o que jamais foi escrito,
Ouvir o que ainda não aconteceu e nem foi dito,
Escolher entre o sim e o não,
E rechear com palavras que façam soar mais bonito,
Sem que pareça uma lição.

Ser mãe é viver com intensa alegria dia após dia:
Fazer bolo de chocolate, comer pipocas, rolar no chão
E assistir mil vezes o mesmo desenho na televisão.
Montar cabana de lençóis no meio da sala,
Ser chamada de tia por crianças a sua volta.
Comprar o primeiro sutiã branco de algodão,
Surpreender com flores a primeira menstruação,
E não perder nenhum capítulo da novela que é cada paixão.

Ser mãe é cuidar bem, zelar com carinho, sem reprimir.
Caminhar ao lado e deixar livre no momento de sozinha seguir...
Ser mãe é estar sempre presente, mesmo quando longe ou ausente,
E viver a vida vibrante, com a certeza de que é maior, infinito,
Inesquecível, imortal o amor que sente...
Cris Lopes

Momento de Luz


(Tela de Géssica Hellmann: Íris grávida)

Oh, Lua!
Repousas em meu ventre,
Resplandescente,
Em quarto crescente,
Vivente tesouro,
Secreto de amor.
Meu pequenininho-grande amor:
Ísis.
Até hoje e para sempre
É teu o meu coração...
Cris Lopes

domingo, 9 de agosto de 2009

Vida


(Tela de Mônica Santana: Ciranda Margaridas)

Vida
Amiga
Vida
Querida
Vida
Despedida
Vida
Sofrida
Vida
Sortida
Vida
Sorvida

Vida
Ida
Vida
Vivida
Vida
Convida
Vida
Vinda
Vida
Ainda
Vida
Linda

Vida
Revida
Vida
Revivida
Vida
Bem-vinda!
Cris Lopes

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O menino e a pipa


( Tela de Marcos Andruchak, 2004: Pipas)

O sol mergulha indolente no mar. Aprecio a brincadeira, sentada no calçadão, enquanto meu pensamento dispersa imagens no horizonte. O vento, faceiro, abana a paisagem e o verde das águas respinga a cor de esmeraldas no ar. Envolvida pelas sensações alegres da natureza, percebo o menino na praia. Deve ter uns nove anos. Corre de um lado para o outro, hábil em manter o domínio sobre sua pipa. No pontal, do alto das pedras, outro garoto, numa posição mais estratégica, guia sua linha e começa a desenhar no céu o duelo com o adversário veloz na beira-mar.
Testemunho o esforço do menino na areia. Confesso que minha torcida é pela vitória dele. No entanto, em poucos minutos, o oponente das alturas lhe ganha a pipa. Agora, o menino não corre mais. Agacha-se na areia, apoia o rosto nos joelhos e abraça a cabeça com os braços como a querer esconder-se de si mesmo. Resolvo aproximar-me e, já a seu lado, ouço um choro baixo e escondido. Sento e falo, dissimulando não perceber o desconforto da situação: “Nossa, o mar está lindo!” Ele retruca aborrecido, sem me olhar: "Não acho!" Então, falo meu nome e quero saber o dele. Em seguida, conto que também tenho um amigo que se chama Fabiano. Pergunto se ele está chateado. Parece que deseja conversar. Logo revela que mora ali perto e que adora soltar pipas. Depois de uma pequena pausa, confessa estar zangado porque perdeu a pipa de que mais gostava para outro garoto. Penso por algum tempo e finalmente concordo: "Ah, entendo. Já perdi também algumas coisas que gostava muito, e posso te contar um segredo?" Espero, enquanto ele decide se quer ouvir. A demora é de apenas alguns segundos, não muitos, porque acho que, como a maioria das crianças, ele é bem curioso. Enfim, esfrega o rosto com o dorso das mãos, levanta a cabeça e, pela primeira vez, me dá uma olhada de soslaio. Balança os ombros como quem informa que “você é quem sabe, se quiser...”. Foi a minha deixa: "Ah, quer saber? Acho que sua pipa também gosta muito de você!" Nessa altura da conversa, ele coça a orelha e pensa não ter ouvido direito. Desconfiado, olha para mim e, num sorriso, misto de ironia e timidez, retruca: "E desde quando pipa gosta de alguém?" Foi a minha vez de rir e perguntar: "Fala uma coisa: Você só está chateado pelo fato de ter perdido sua pipa preferida?" Ele pensa e confessa: "Não, estou triste comigo mesmo, porque não sou esperto. E o pior de tudo é que, quando voltar para casa, vou achar muito chato ter que contar o que aconteceu para os meus pais. Eles vão dizer que sou um bobo!" Continuo: "Hum, eu não acho que você é bobo. Estava sentada lá, naquele banco do calçadão e vi tudo. Você foi muito esperto! Correu bastante e se esforçou até o final. Por isso digo que a sua pipa também gosta muito de você! Ela lhe revelou a vontade de vencer e mostrar o quanto você é capaz de lutar pelo que deseja. Foi o instrumento para testar sua coragem, entende? Em minha opinião você é um vencedor! Sabe, nem sempre quem ganha é o melhor, o verdadeiro vencedor. Você estava numa posição pior do que a do outro menino, contra o vento e, mesmo assim, ele teve muito trabalho para ganhar sua pipa. Afirmo até que, diante das circunstâncias, você é muito mais habilidoso do que ele. A vida sempre oferece oportunidades para nos testar e nos revelar nossos potenciais. É assim que a gente aprende a ser melhor."
Já escurecia. Fabiano avisa que precisa ir embora. Agradece pela força e fala que vai contar aos pais como havia lutado, com agilidade e esforço, para defender sua pipa até o final. Corre alguns metros. Para. Olha para trás e, sorrindo, me pergunta: "Qual é mesmo o seu nome?" "Carolyne." Saltitante, ele desaparece. Como faz bem soltar uma pipa de vez em quando!
Cris Lopes

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ele- Amor



Ele caminha flutuando. Hipnotiza a todos com sua leveza angelical.
Seu doce olhar, profundo e sincero, reflete a grandeza de seu coração.
Nossos corpos aquecem com a energia que emana dele e nossos sentidos despertam à luz de sua presença.
Momentos únicos...
As pessoas chegam pouco a pouco: homens e mulheres; pobres e ricos; velhos, jovens e crianças. Não há predileção. Todos são os escolhidos. Ele unge a nossa alma com seu perfume de amor.
Momentos eternizados...
Enquanto ele fala protegido à sombra de uma videira, sentado sobre uma grande pedra, algo no mundo nunca mais será igual, não para quem escute as suas palavras.
A verdade é muito diferente do que imaginávamos. O amor, a justiça, a caridade, a riqueza, todas as questões filosóficas e complexas do ser, explicadas por ele, transformam-se em objetos de simples compreensão.
Penso: meu Deus, como é única a beleza desse homem!
Uma mulher capenga senta-se ao meu lado e envergonhada pergunta: quem é ele e eu respondo refrescada por lágrimas abençoadas: o nome dele é Jesus...
Cris Lopes

terça-feira, 28 de julho de 2009

Os Rios




(Telas de Eduardo Camões)

Águas urgentes, águas calmas desvendam caminhos desconhecidos a cada segundo... Os rios percorrem curvas sinuosas, trajetos suaves. Margens próximas, braços distantes. Em alguns momentos se deparam com barreiras. Impedidos temporariamente, no repouso forçado, os rios são pajés, sábios da natureza: cautelosos, pacientes, permeáveis, persistentes. Não desistem, rezam e esperam a hora certa de seguir adiante. Simplesmente sabem que ela chegará e será imprevisível, a mais bela, porque os libertará da solidão... Quando, finalmente, prosseguem, transbordam a vitória daqueles que determinados reencontram o seu verdadeiro caminho.
Em outras passagens, o destino alcançado, depois do percurso incessante, trabalhoso, revela tão extraordinária imensidão que os rios são meninos assustados, desejam, contudo temem o desconhecido e, receosos lutam, criam rodamoinhos, na tentativa alucinada de recuarem, de estagnarem-se, enquanto avaliam se devem prosseguir. Fugaz tentativa, porque a vida tem força própria, movimento incessante, dinâmico. E a vida existe em cada molécula de água que nasce na fonte. Assim os rios são mães abnegadas, generosas no final do caminho: entregam-se, incondicionalmente, ao mar para serem recriados, perpetuados em algo maior, muito maior...
O mundo gira e o tempo revela que não há fim no caminho: a terra é acariciada, penetrada, nutrida. Agradecidas, as árvores verdejantes, se regojizam. Frondosas oferecem repouso, abrigo e seus frutos. Testemunha vibrante, o sol, amigo companheiro, acaricia e abraça ás águas. Oferece seu calor e as conduzem ao céu, o lugar para onde devem ser enlevadas por mérito, merecimento...
O silêncio desse mágico momento é rompido pela alegria do vento. Levado, ousado, faceiro esfrega-se nas folhas, levanta as saias das flores e solta gritos estrondosos pelo ar. Anuncia a chuva que, tal como o rio um dia foi, é mãe generosa e abençoa a vida de seus filhos.O ciclo de amor, troca natural reinicia. As águas retornam de onde partiram. Diluídas, perdem a memória de suas conquistas, no entanto algo inexplicável habita nas profundezas, em essência. E, nas noites enluaradas, finalmente, os rios se iluminam: são velhos e descansam em paz sua satisfação plena, porque sabem de onde vieram e como devem seguir adiante e simplesmente o fazem...

(Cris Lopes)

Amar você



Amar você é abrir as janelas das manhãs todos os dias
E deixar o sol entrar, aquecer e abrigar meu corpo inteiro!
É sentir a primavera anunciar, no meu coração, seu canteiro,
Ofertando as mais belas flores, da cor de alegrias:
Plantio de um homem, doce companheiro,
Manso na conquista, do amor é ele o meu belo jardineiro...
Que sempre simples ao cuidar, o faça por inteiro!

Amar você é viajar na luz das estrelas, vencer o tempo e o espaço.
Dormir para sonhar longe de casa, e acordar no seu abraço,
Sentir o ventre ecoar o som de sua voz
Nas carícias, delícias: malícias sem mãos.
Toques imaginários,
Sensações plenas de prazer, reais:
Arrepios, gemidos, espasmos,
Desejo,
Desejo,
Desejo,
Dê jeito,
Deleito
O orgasmo explode
O gozo de nos pertencer,
De tanto gostar e mais querer...

Amar você é entrega: mergulhar o mar profundo sem medos,
E desaguar emoções veladas, sem mistérios, sem segredos...
Saber que não há risco nem perigo, só o abrigo amigo da certeza,
Revelada nas risadas, selada nas palavras coerentes, querentes, quentes:
Maravilhosa cumplicidade, fonte que unge nossas peles, une nossas mentes,
Desvenda o futuro: nós dois sempre juntos, apaixonados, caminhando lado a lado,
Realizando nossos planos, construindo nossas vidas, meu querido, meu amado!

(autora:Cris Lopes)

Nosso ninho


Nos momentos de nosso ninho, meu amor:
O sol namora, o céu sorri, a lua canta.
Sou livre, alegre, menina levada.
Teu corpo feito mar suave dança,
E, na valsa ondulante, doce é a entrega:
Quero te pertencer, ser desvendada,
Amada, ser a mulher tão e somente tua.
Flui a certeza de nossa aliança,
Eterna magia baila tal como criança,
Verdade faceira despe-se, rodopia nua.
O desejo gemente, querente seduz, conduz
Nossas carícias, nossos beijos, nossas bocas loucas.
O mundo gira, o mundo para e grito: vem amor, vem...
Minha respiração te excita, te convida!
Exalas meu cheiro em palavras roucas.
Tudo em nós é intenso, as horas são poucas!
O prazer é imenso e faz tão bem, meu bem...


Nos momentos de nosso ninho, meu amor:
Repousas em meu ventre,
Nossas fantasias, nossas loucuras sem medos.
Acalento nossos sonhos, abrigo teus segredos.
Tuas carícias, meus gemidos,
Provocam teus instintos latentes,
Aguçam meus sentidos ardentes.
Vibras o arco-íris, enfeitas minha flor,
Desfeita, refeita sem dor, perfeita em cor.
Sinto-te perto, liberto, repleto de mim.
Meu olhar te procura, encontra o teu
E aquieto-te, homem amado, saciado, só meu...
Adormecemos serenos, felizes, assim:
Mãos dadas, pernas entrelaçadas,
Almas abençoadas, perfumadas,
Sempre mais apaixonadas...
Cris Lopes

Per la vitta


(Tela de Alberto Sughi: O Grande Bar)

O carro conhece o caminho. Segue pela avenida principal, vira a terceira rua à direita e estaciona próximo à esquina. As mãos presentes no volante, trêmulas, são incapazes de lutar por mim. Hoje, só por hoje. A garganta seca reclama mais um gole, e é a que sempre vence a batalha, sem alarde, sem grito, sem força. Amanhã tento de novo!
O bar esfumaçado, sufocante é meu lugar preferido. Examino as mesas. Preciso de duas companhias para aquela noite. Sinto-me solitário, deprimido. É o preço que todos nós, dependentes, pagamos. As cortinas se fecham e após cada ato, os personagens, um a um, partem. Na última cena só existe aquele que se mantém até o final imutável, inflexível. Não há mais ninguém para aplaudí-lo ou enxotá-lo. Não há mais ninguém que chore a sua morte ou acredite na sua ressurreição.
A moça com o rosto grudado na janela parece habitar outro mundo.
- Meu nome é Alcides. Posso sentar-me com você?
- Faça o que quiser. Não me importo.
Bom começo para um homem como eu. É disso que preciso: uma mulher que não se importe, porque todas que se importam, mais cedo ou mais tarde me abandonam.
- Como é o seu nome?
- Polyana.
- Ah, como no livro?
- Não, eu sou a Poly do livro.
O garçom aproxima-se.
- Por favor, o de sempre...
-Eu prefiro um vinho tinto e seco.
- Um Camigliano?
- Pode ser.
- O que você faz, Polyana?
- Quando não sou Polyana, sou a Mulher Maravilha.
- E não existe nenhuma outra?
- Como assim?
- Quem está hoje, me dando o prazer de sua companhia?
- A sapa.
- Hum, quer dizer que preciso beijá-la para que a princesa apareça?
- Não há princesa.
- Sapa sem princesa?
Ela responde secamente:
- É. Sapa que atravessa escorpiões ao outro lado da margem. Conhece a parábola?
- Sim.
Ela vira o rosto para a direção da rua, enquanto eu penso na história. Quantas vezes eu fui o escorpião em minha vida? Incontável. Sempre quem tenta me atravessar é ferroado no fim do caminho. Meu poder destrutivo não tem limites. A minha natureza é essa: sou puro veneno.
- Então é melhor você ter cuidado comigo, porque eu sou o pior de todos os escorpiões que você já conheceu.
Pela primeira vez, sinto que falo algo que lhe aguça os sentidos. Um brilho enigmático surge do mais profundo de seus olhos e me deixa embaraçado.
- Seja bem-vindo a “dolce notte finale”!
- Obrigado, sapinha!
- Pode me chamar de Isabelle.
- Que lindo nome!
O garçom nos serve.
- Um brinde a nós!
- Per la salute o la morte?
Já faço essa escolha todos os dias. Respondo com outra pergunta.
- O que você mais deseja Isabelle? Hoje eu quero ser um gênio. Peça e eu atendo.
Ela não contém a gargalhada sarcástica e pergunta quantas doses eu tomei antes de chegar.
- Nenhuma. Estou na primeira. Peça!
- Está bem. Eu quero um caminhão numa rua escura.
- Eu tenho um Bugatti Veyron. Não é grande como um caminhão, entretanto é muito mais veloz!
- Não vale!
- Então me dá mais uma chance. Peça outra coisa.
- Um outro mundo.
Sinto-me desmoronar. Um outro mundo é tudo o que eu também desejo!
- E como é esse mundo?
Ela me olha por alguns segundos. Parece infeliz demais para gastar seu tempo conversando com um estranho sobre algo tão particular. No entanto, responde:
- Um mundo simples, onde o amor ainda está em alta e é capaz de fazer toda a diferença, de transformar as trevas em luz!
Há seis anos, a mesma sala, a mesma reunião. Muitas pessoas novas e poucas já bem conhecidas. Hoje, só por hoje, per l´amore, per Isabelle, per me...
Cris Lopes

A Naja


Myrna caminha sem calçados, alienada. O acaso do momento quase a despiu. Roupas finas, destoantes com a noite gélida, lhe ignoram o corpo inteiriçado. Os bicos dos seios tesos, abusados, gritam sob a seda fina escarlate. As curvas fartas do quadril ondulam num balanço displicente e sensual. O vento frio tonteia-lhe os cabelos longos e negros. Percorre tal como mão despudorada a garganta estreitada e no centro de seu peito, encontra o lugar certo para penetrar-lhe. Os olhos grandes, ocultos em algum lugar, muito distante, revelam a mulher angustiada e solitária. Fábio a segue por quase meia hora. Sente-se atraído, de olhar fixo, como se ela fosse uma naja a dominá-lo no ar. Aquela mulher pode ser perigosa, porém existe apenas a possibilidade de copiar-lhe os passos descompassados. Saber o mistério, a música que a conduz. Seu corpo, sua mente desejam isso, inexplicavelmente desejam isso com urgência.
A racionalidade serve melhor ao medo, já a intuição é o cavalo da coragem. Lança-nos em labirintos, em abismos, em desertos, onde só existe o maravilhoso impulso de seguir a própria vontade. Muitas vezes só ganhamos feridas, dores, desatinos e desenganos. Entretanto, em raras ocasiões, revela encontros únicos, inesquecíveis, capazes de ensandecer bússolas. Sinaliza rumos, escolhe caminhos da forma mais eloqüente, repentina, e nos surpreende. Transborda emoções encasuladas que anseiam germinar. Derruba portas que nos permitem espionar um pouco do céu. E como sabê-lo? É preciso arriscar e se entregar à loucura.
Fábio observa que os passos da mulher fraquejam. Próximo, estende os braços para evitar-lhe a queda. O olhar preso no seu, lentamente despe-se do véu, aproxima-se e revela a cor de doces avelãs. Há neles muita umidade. Fábio sente vontade de abraçá-la, de aquecê-la, de afagar-lhe os cabelos alvoroçados,entretanto se contém. Não quer assustá-la. Deseja só que a música se aquiete.
-Meu nome é Fábio. E o seu?
-Myrna.
As mãos delicadas, cerradas, são espalmadas em seu peito. Fábio teme que vão empurrá-lo. No entanto, ela as deixa assim, apoiadas, sem peso. O triste olhar parece despertar manso. Espreguiça em movimentos lentos, cautelosos. Explora o seu rosto de homem: os contornos, os traços, as ocultas intenções. Fábio é atraente. O nariz longo combina perfeitamente com o queixo anguloso. Os cabelos fartos e ruivos contrastam ousados com os olhos miúdos e verdes. Myrna fixa o olhar em seus lábios. Penetra-lhe e desliza toda por sua boca. A sensação de engolir uma mulher inteira é galopante e o faz explodir num riso farto. O sorriso mais contagiante e iluminado que Myrna já recebeu. No céu, uma música começa a tocar, enquanto outra silencia.
Cris Lopes

Um Homem


(Tela de Salvador Dalí: Rosa Meditativa)

Existe um homem ao redor.
A passos firmes, lentamente, ele vem chegando.
Posso sentir seu perfume e sua alma.
Meu corpo vibra à sua aproximação.
Ele me olha feliz e sabe o tesouro que vamos encontrar.
Somos cúmplices de coisas já sofridas e de tantas outras ainda não vividas.
Há frescor no ar.
Tal como a brisa suave, suas mãos movimentam-se em meus cabelos.
Seu toque é sem pressa,
E transborda o meu coração de leão, solar.
Que maravilhoso homem é esse que chega! Penso.
Sem segredos, sem medos.
Fico a contemplá-lo simplesmente.
Já conheço o seu rosto e isso é tão estranho...
Fico a contemplá-lo novamente, docemente.
Ele penetra em meus sonhos, como menino levado, sem pedir, irreverente.
Seu carinho, sua voz, seus olhos me prometem tanto.
Seu jeito de ser é minha dúvida e meu encanto.
Não sei ao certo porquê nos encontramos no deserto.
Talvez os céus tenham apontado o caminho, talvez um pranto.
Existe um homem ao redor.
A passos firmes, lentamente, ele vem chegando,
Abrindo seu caminho no meu coração...
Cris Lopes

Espreguiçar Poético


Refugias o cântico de lamento.
A voz desnuda-se ao olhar atento.
Expulsas velhas palavras omitidas,
Sensações mal vividas,
Rejeições indefinidas,
Sem tempo.
Silencias o medo,
Que foge lento,
Ao vento.
O milagre cria-se aos pés sangrentos,
Lavados, sanados,
Cansados, amados.
A mulher desfalece lânguida, sem calçados,
Em abusos bem vindos,
Em gozos divinos.
Vibras o ventre vivente, vertente.
Pulsam corpos urgentes, gementes,
Moventes em ondas sincrônicas
De expressões atônitas.
Surrados, suados sugam o sumo supremo
De profundezas primitivas,
Fontes instintivas.
Fluido quente, querente faz a carne
Tremer, molhar, viver.
Adormecem os amantes,
Entrelaçados num poético despertar,
Cúmplices, quietos, certos como antes
De que sempre vão se amar!
Cris Lopes

Saudade


Penso em ti
Quando cega minha visão repousa, pousa no mar.
Ao som afoito de ondas vibrantes,
O desejo reflete a beleza perfeita.
Fluida carícia,
Sonora, surte prazer vadio, arredio ao corpo solar,
Que ousado, aflito o arco-íris lança, fecunda,
Se deleita e se deita.
A cor é profusa, a mente confusa!
Teu olhar de mato verde, teu cheiro de flor violeta
Vertem os meus sentidos.
A saudade solta, envolta navega
E te busca e te encontra em perdidas águas,
Onde amigas almas flutuam e calam os meus pedidos.
A voz ecoa ao vento, atento:
O sonho é real.
Te vejo no espaço,
E na calmaria
Sou magia, alegria,
Simples poesia.
Desperto...
Cris Lopes

O Bilhete


(Tela de Camille Pissarro: Café au lait)

Os sabiás bicam, alvoroçados, suas migalhas no parapeito da janela, após a hora do almoço. Observo a alegria de asas livres, a pressa em busca da satisfação, a generosidade de alguns em compartilhar um pequeno pedaço. Comem mais um pouco. Saltitantes, retribuem com alegria e doce melodia. Vejo-os partirem com a certeza de seu retorno no dia seguinte.
Tudo parece tão igual no parapeito da janela, contudo, na sala, há algo enigmático: o silêncio de Eduardo. E, por mais que tente desvendar o que seus olhos enxergam, fixados no jornal, o mistério prossegue. Quem é aquele homem ocupando o corpo e a poltrona de meu marido? Jamais o vira. O que está acontecendo? Será que Eduardo viajou sem me avisar? Foi abduzido por ETs? Como entender que alguém desapareça tão repentinamente?
Reviro nosso quarto, mas não encontro mensagem alguma. Na cômoda, nenhum recado, nenhuma explicação. Quantas vezes bilhetes presos ao espelho transbordaram seu jeito carinhoso de me amar: “Querida, amo você! Volto assim que puder”.
Dolorida é a saudade da ausência tão presente. E a presença ausente é a companhia que me amaldiçoa, me aprisiona e me condena ao desespero da verdadeira solidão. Corrosiva ao coração, enferruja minha alma. Envelheço precocemente, porque rouba, impiedosa, todos os meus sonhos. Angustiada, tento todos os remédios e, no fim, após cada tentativa, após cada fracasso, a certeza da impotência cresce. Tal como erva daninha me envolve. Sufoco, tonteio e despenco num abismo escuro, frio, vazio.
O café desce amargo pela minha garganta. Penso. Repenso. Reflito. Refaço. Desfaço. Busco e não encontro nada. Nas últimas semanas a campainha toca e anuncia, todos os dias, a visita de meu cunhado. Celso e o desconhecido permanecem muito tempo trancados no escritório. Quando o intercepto à saída, caminha apressado, em direção à porta, fugindo, e responde sempre o mesmo:
- Calma, Renata. Não posso falar nada. Tenha paciência!
Meus ombros caem, minhas costas encurvam, meu peito se fecha ainda mais. Ah, como admiro os sabiás! Não há generosidade naquele homem. Não há acalento algum nas suas palavras. Minha dor transparece nos olhos inchados, secos de tanto aguar e prossigo sem migalha...
Mais um dia, mais uma noite, mais um despertar letárgico. Mais um desjejum, mais um almoço. Ouço passos no andar de cima. Espero. Bebo meu café. O desconhecido desce e para à minha frente. Nossos olhos se encontram. Meu Deus, meu marido voltou! No entanto há algo estranho, absurdamente estranho. Malas?
- Eduardo, o que significa isso?
Pergunto, mas não quero saber! Minha mente grita: por favor, não me diga! Por favor, não me responda! Ele não escuta meus gritos silenciosos e prossegue:
- Amor, seja forte! Estou indo para o hospital. Resta-me pouco tempo de vida. Já cuidei de todos os detalhes com o Celso. Ele sabe exatamente tudo o que precisa ser feito e vai orientar você. Seria mais difícil ainda a idéia de morrer com você ao meu lado.
Ele aproxima-se. Beija-me suavemente a face e balbucia o bilhete que procurei, em vão, nos últimos meses: querida, sempre amarei você. Há muitas lágrimas no olhar dele. O meu continua seco. Em seguida, afasta-se, e arrastando-se, desaparece pela porta.
Agora sei: é veneno o amargo do café! Sinto um soco cruel, contundente no estômago. Fico cega, paralisada, sem respiração. Meu coração não se esquece de bater , no entanto viva, morro em poucos segundos.
Cris Lopes

Hermes


(Tela de Vincent Van Gogh: Retrato de Père Tanguy)

José beira os oitenta anos, mas ninguém diz. Aparenta no máximo setenta. É um homem que vive sem pressa e com sabedoria. Inteligência que nasce essencialmente da alma, e brota na sensibilidade de um bom e simples coração.
Sai de casa bem cedo. Na calçada, olha a porta do comércio ainda cerrada. Observa os movimentos dos vizinhos e escuta-lhes os bons dias, os até logos, as queixas. Sozinho, coça as curvas do maxilar e abaixa o olhar até o papel de um picolé amassado. Tira o pequeno boné que lhe disfarça a calvície e, por alguns minutos, cerra os olhos lacrimejantes...
Caminha, então, duzentos passos, até um pequeno portal de ferro. Fixa as lanças. Sente-lhes atravessar o coração. Respira fundo a coragem do momento. Precisa ser forte pelo tão estimado patrício. Toca a campainha. Ouve os latidos do Chuvisco e a disputa dos meninos pelo lugar de pódio na janela. E de lá, do topo da escada, ela, tão inocente, caminha em seu lindo sorriso. Ele a recebe com seus velhos braços. Há, naquele abraço, o segredar de amigas almas. Foi assim desde a primeira vez que a abraçou. Não tem filhos, contudo o amor que nutre por Márcia é verdadeiro e paternal.
O sol já promete no céu uma linda manhã primaveril, entretanto, para José, o dia não poderia ser mais nebuloso e nem ele mais velho. Sente-se pesado com a carga que responsabilizou a si próprio. No entanto, alguém precisava ser o mensageiro, então, em honra à amizade de tantos anos, cumprisse ele o papel de Hermes.
No centro da sala de estar, acalenta os mimos dos meninos que o chamam de vô, enquanto Márcia busca o café. O forte aroma desperta a casa. Pede a eles para brincarem no quarto, porque precisa falar com mamãe, sozinho.
Quando Márcia retorna com a xícara fumegante, ele a repousa sobre a mesinha de centro. José olha para Márcia e, da maneira menos cruel possível, lhe dá a terrível notícia. Os joelhos da moça se dobram e ela cai debruçada sobre o tapete. Encurvada, com frêmitos, soluça compulsivamente. A artrose se esquece dos joelhos e José se agacha. Suspende aquele corpo caído com a ternura de um anjo e o guarda.
O tempo urge em abandonar o passado. José, aos 85 anos, abriga, na família do amigo, o amor de filha e de netos. Tal como uma velha árvore frondosa, generosa, a melhor sombra oferece e se renova. Agora apostam que tem no máximo 60.
Cris Lopes