terça-feira, 28 de julho de 2009

O Bilhete


(Tela de Camille Pissarro: Café au lait)

Os sabiás bicam, alvoroçados, suas migalhas no parapeito da janela, após a hora do almoço. Observo a alegria de asas livres, a pressa em busca da satisfação, a generosidade de alguns em compartilhar um pequeno pedaço. Comem mais um pouco. Saltitantes, retribuem com alegria e doce melodia. Vejo-os partirem com a certeza de seu retorno no dia seguinte.
Tudo parece tão igual no parapeito da janela, contudo, na sala, há algo enigmático: o silêncio de Eduardo. E, por mais que tente desvendar o que seus olhos enxergam, fixados no jornal, o mistério prossegue. Quem é aquele homem ocupando o corpo e a poltrona de meu marido? Jamais o vira. O que está acontecendo? Será que Eduardo viajou sem me avisar? Foi abduzido por ETs? Como entender que alguém desapareça tão repentinamente?
Reviro nosso quarto, mas não encontro mensagem alguma. Na cômoda, nenhum recado, nenhuma explicação. Quantas vezes bilhetes presos ao espelho transbordaram seu jeito carinhoso de me amar: “Querida, amo você! Volto assim que puder”.
Dolorida é a saudade da ausência tão presente. E a presença ausente é a companhia que me amaldiçoa, me aprisiona e me condena ao desespero da verdadeira solidão. Corrosiva ao coração, enferruja minha alma. Envelheço precocemente, porque rouba, impiedosa, todos os meus sonhos. Angustiada, tento todos os remédios e, no fim, após cada tentativa, após cada fracasso, a certeza da impotência cresce. Tal como erva daninha me envolve. Sufoco, tonteio e despenco num abismo escuro, frio, vazio.
O café desce amargo pela minha garganta. Penso. Repenso. Reflito. Refaço. Desfaço. Busco e não encontro nada. Nas últimas semanas a campainha toca e anuncia, todos os dias, a visita de meu cunhado. Celso e o desconhecido permanecem muito tempo trancados no escritório. Quando o intercepto à saída, caminha apressado, em direção à porta, fugindo, e responde sempre o mesmo:
- Calma, Renata. Não posso falar nada. Tenha paciência!
Meus ombros caem, minhas costas encurvam, meu peito se fecha ainda mais. Ah, como admiro os sabiás! Não há generosidade naquele homem. Não há acalento algum nas suas palavras. Minha dor transparece nos olhos inchados, secos de tanto aguar e prossigo sem migalha...
Mais um dia, mais uma noite, mais um despertar letárgico. Mais um desjejum, mais um almoço. Ouço passos no andar de cima. Espero. Bebo meu café. O desconhecido desce e para à minha frente. Nossos olhos se encontram. Meu Deus, meu marido voltou! No entanto há algo estranho, absurdamente estranho. Malas?
- Eduardo, o que significa isso?
Pergunto, mas não quero saber! Minha mente grita: por favor, não me diga! Por favor, não me responda! Ele não escuta meus gritos silenciosos e prossegue:
- Amor, seja forte! Estou indo para o hospital. Resta-me pouco tempo de vida. Já cuidei de todos os detalhes com o Celso. Ele sabe exatamente tudo o que precisa ser feito e vai orientar você. Seria mais difícil ainda a idéia de morrer com você ao meu lado.
Ele aproxima-se. Beija-me suavemente a face e balbucia o bilhete que procurei, em vão, nos últimos meses: querida, sempre amarei você. Há muitas lágrimas no olhar dele. O meu continua seco. Em seguida, afasta-se, e arrastando-se, desaparece pela porta.
Agora sei: é veneno o amargo do café! Sinto um soco cruel, contundente no estômago. Fico cega, paralisada, sem respiração. Meu coração não se esquece de bater , no entanto viva, morro em poucos segundos.
Cris Lopes

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